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Textos psicografados, romance, Umbanda, Espiritismo compõem a tônica do A Alma das Coisas.
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Annapon ( escritora e blogueira )

A Missão das Quatro Estações

Olá amigos leitores do "A Alma das Coisas"! O blog está com uma novidade, romance mediúnico totalmente gratuito e publicado, ...

A Missão das Quatro Estações - Capítulo XIV - A REGRESSÃO DE ANANDA -

A REGRESSÃO DE ANANDA

Nesse ínterim, as dores da guerra espalhavam-se pela Europa. A energia que pairava no ar era densa, dolorosa. A guerra também trazia a fome, a doença, o ódio, a perda. Fardos de peso extremado que a humanidade há de, alguma forma, ter de expurgar.
Nas mãos de homens enlouquecidos tombaram muitos destinos. Choraram mães, padeceram filhos, enlouqueceram pais, abortaram-se novos espíritos frustrando chances, demorando-se os reajustes.
Em Deus não se pensava, de Jesus fora esquecida a palavra e, nesta soma, jazia o ser humano.
Pobre Europa que de primeiro mundo leva o título. Há de sofrer em seu íntimo toda a dor e loucura que espalhou.
Desses e de outros tantos horrores, muitos de nós, espalhados pelo mundo, temos dívidas a saldar.
Terremotos, terrorismo, calamidades envolvendo coletividades, rebeliões, famílias em desarmonia, jovens enlouquecidos são o saldo infeliz de todo o mal que se fez.
Agradeça a Deus aquele que ama a tudo e a todos. Este é feliz.

Durante o espaço de tempo que a equipe espiritual teria para voltar a se dedicar a Henry, muito trabalho foi por eles realizado em prol das vítimas da dor e do sofrimento.
Onde a guerra deixou poças de sangue e de ódio, lá eles atuaram, curando feridas do espírito, encaminhando muitos a hospitais espirituais. Trabalharam com amor e dedicação. Lamentaram por aqueles que insistiam em se demorar no ódio, no apego ao corpo físico negando a morte do corpo e querendo ainda continuar a batalha. Era com dor no coração que viam irmãos enlouquecidos a vagar em meio a corpos já em estado de decomposição, querendo que os mesmos se levantassem e continuassem o que já não podiam mais continuar. A dor era cega e o alívio tardaria a chegar.
Finda essa etapa do trabalho, Frida e Augustus, responsáveis pela Missão das Quatro Estações, concluíram que a hora da verdade total era chegada para Ananda, chamaram-na para uma conversa:
─ Irmã nossa, é chegada a hora da revelação. Até aqui lhe foi permitido ter uma visão quase que superficial sobre tudo o que lhe ocorreu.
Ananda sentiu frio intenso a percorrer-lhe todo o ser. Armou-se de coragem e fé, dizendo:
─ Seja feita a vontade de Deus, estou pronta meus amigos.
─ Muito bem. – Disse Frida - Voltemos ao local de seu desencarne, coragem irmã, vamos até lá ver o que realmente aconteceu. Força.
Ananda sentiu a necessidade de concentração total, em estado de prece e de elevação de pensamento, seguiu seus instrutores até o penhasco, palco de sua morte física.
─  Ananda. – Chamou por ela Frida com voz firme e enérgica –
─ Lembre-se agora de como se deu a sua queda. Lembre-se dos detalhes do dia que passou, enfim, lembre-se de tudo, agora.
Ananda, joelhos postos sob o penhasco, pouco a pouco, começou a lembrar-se:
─ Sempre amei a neve. Aqui de cima então, que beleza era ver sua brancura, como ela tingia de branco todas as cores. Era tão bonita! Era por admirar essa beleza, por Deus provida, que eu sempre vinha até este penhasco. Fosse primavera, verão, outono ou inverno, tudo era sempre tão belo! Este era meu recanto. Aqui eu me encontrava com Deus. Aqui eu dirigia a Ele minhas preces. Aqui eu encontrava a mim.
Lembro-me de Dona Manoela. Ela vive aqui perto. Várias vezes encontrei-a pelo caminho. Ela gosta de colher flores. Gosto dela.
Fazia muito frio naquele dia. Eu e minha mãe estávamos sozinhas em casa. Meu pai gostava de andar na neve, eu também. Minha mãe não gostava muito dessa ideia, mas nos respeitava o gosto.
Papai saíra para caminhar. Ele gostava de caminhar e, quando se cansava, parava para ler. Ele gostava de ler.
Olhando pela janela, senti enorme vontade de ir até o meu recanto no penhasco. Agasalhei-me bem, olhei nos olhos de minha mãe, abracei-a fortemente, beijei-lhe as mãos sentindo uma emoção tão forte que não sei expressar. Agora entendo. Eu estava me despedindo dela.
Em meio à narrativa, Ananda deixou-se levar pela emoção, soluçando de dor e de saudade. Levou um tempo para reequilibrar-se e continuar com suas lembranças:
─ Caminhei devagar sentindo o frio que quase congelava o meu rosto. Pelo caminho tudo era deserto, não havia uma só pessoa, nem mesmo um animal. Tudo era silêncio e vida ao mesmo tempo porque se podia ver a fumaça que saía das chaminés das casas, sentir o doce aroma do alimento que estava sendo preparado. A vida pulsava naquele deserto branco e falava naquele silêncio. Senti em meu coração, ali, naquele momento, a grandiosidade das bênçãos de Deus que a tudo e a todos ampara e, pensando assim, caminhei mais feliz e emocionada, eu sentia alegria, gratidão e um amor profundo por tudo o que me rodeava.
Cheguei ao meu recanto com a alma em estado de graça, sentei-me, orei. Não percebi, devido à minha profunda concentração, os passos que de mim se aproximavam. Quando dei por mim, ali na minha frente, havia uma pessoa que me olhava duramente, amargamente. Levantei-me e, com educação, cumprimentei essa pessoa que não consigo visualizar bem o rosto.
─ Esforce-se, concentre-se. – Disse Frida com autoridade –
Alguns minutos se passaram até que Ananda mudou bruscamente a expressão de seu rosto, estava absolutamente espantada, amedrontada.
─ Posso ver agora, conheço essa pessoa.
Resolvi perguntar o que fazia ali sem obter resposta. Apenas seus olhos brilhavam exprimindo um ódio tão profundo que foge completamente à minha compreensão. Não consegui compreender aquele olhar. Estaria louca aquela pessoa? Senti medo, corri. Ouvi passos correndo atrás de mim e uma voz que gritava:
─ Eu a odeio, odeio. Agora é a hora, vou me livrar de você.
─ O medo me cegou, eu corria sem saber para que lado ir até que me vi a poucos passos da ponta do penhasco,cuja altura era algo aterrador. Sem que eu pudesse olhar para trás, senti em minhas costas forte pressão de mãos que me empurravam, tentei me equilibrar, tentei falar, mas só o vazio veio. Caí. Senti um horror profundo, fechei os olhos, chamei por Jesus enquanto sentia fortes pancadas por todo o meu corpo. Não senti mais nada, nem a derradeira dor. Dormi.
Novamente Ananda interrompeu as lembranças soluçando e se perguntando:
─ Por quê? O que eu fiz a essa pessoa para que fizesse isso comigo? Será que mereci?
Augustus e Frida trataram de acalmar Ananda. Reconfortaram-na com passes magnéticos e fluídos calmantes.
Fredy assistia a tudo emocionado, chorando muito.
Ananda acalmou-se retomando as lembranças:
─ Acordei no hospital. Vi meu espírito e o meu corpo separados. O Reverendo Nicos pôde me ver. Isso foi bom.

Ananda conhecia agora o rosto de quem lhe havia tirado a vida. Reviveu seus momentos de aflição até chegar à espiritualidade, mas outras revelações ainda viriam muito esclarecimento ainda haveria de chegar e muito trabalho ainda deveria ser feito dentro do curto espaço de tempo de quatro estações.



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