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Textos psicografados, romance, Umbanda, Espiritismo compõem a tônica do A Alma das Coisas.
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Annapon ( escritora e blogueira )

A Missão das Quatro Estações

Olá amigos leitores do "A Alma das Coisas"! O blog está com uma novidade, romance mediúnico totalmente gratuito e publicado, ...

A Missão das Quatro Estações - Capítulo VIII - A Missão das Quatro Estações -

A MISSÃO DAS QUATRO ESTAÇÕES

Na prisão Henry sofria. A dificuldade em arranjar um advogado o apavorava. Pensava em Eliza, sentia saudade. Sabia que ela não poderia visitá-lo sob nenhum pretexto e dela também não tinha notícias.
No plano espiritual tudo já estava acertado. O trabalho de Ananda começaria em breve. Aliás, sem mesmo que ela soubesse, os amigos da espiritualidade já haviam iniciado o trabalho ao aproximarem Eliza do irmão. Tiveram lá os seus motivos.

A primavera chegou sem ser notada. A guerra cegava as pessoas. Não permitia que elas percebessem as sutilezas da vida.
Ananda e seus companheiros, Frida e Augustus, enfim estavam preparados para iniciar o trabalho.
Ao se aproximar da Terra, de sua cidade, Ananda sentiu forte emoção, compreendida por seus amigos que a auxiliaram a recuperar o equilíbrio.
Eles sabiam que Henry não era o responsável pelo “desencarne” de Ananda. Parte da missão consistia em descobrir o verdadeiro algoz da menina. Frida e Augustus sabiam quem fora o responsável. Ananda antes de saber necessitava conhecer algumas verdades por ela ignoradas. Esses fatos foram omitidos pela espiritualidade para que Ananda, por si só, descobrisse, compreendesse e, por fim, perdoasse. Seus companheiros saberiam como orientá-la.

O Reverendo Nicos e Margareth estavam quase perdendo as esperanças de encontrar um advogado para Henry quando o Reverendo soube que, na cidade, encontrava-se uma jovem de nome Ava, recém formada em Direito.
Ava estava em Antuérpia por conta de uma visita aos tios, que resultou em uma estada forçada, uma vez que, por causa da guerra, ninguém entrava e nem saía da cidade. Salvo em casos especiais.
Emocionado, o Reverendo rogou ao Pai e a Jesus que essa criatura o auxiliasse. 
Visitar o Senhor Ivan, tio de Ava, não seria difícil para o Reverendo, pois ele era frequentador assíduo da igreja e muito boa pessoa. Animado e esperançoso, o Reverendo foi visitá-lo sem perceber a presença iluminada de Ananda e seus amigos, que o acompanhavam, iniciando assim, a tarefa das quatro estações, todos eles, em equipe.
Pelo caminho, o Reverendo ia torcendo as mãos, seu coração batia forte e sua mente mantinha-se em oração. Bateu à porta de uma casa simples e bem cuidada. Para seu total espanto, foi recepcionado por uma mulher negra, impecavelmente uniformizada.
Tratou de refazer-se do susto e perguntou:
– É aqui que reside o Senhor Ivan?
– É sim senhor. Deseja vê-lo?
– Se possível, gostaria muito.
– Entre, Senhor padre. – E apontando uma cadeira posta na sala de entrada, convidou-o a sentar-se. Ao que o Reverendo aceitou sem questionar –
– Aguarde um pouco, vou chamar o Senhor Ivan.
– Muito obrigado.
O Reverendo estava surpreso demais em encontrar uma negra, nem mesmo conseguia alinhar o seu pensamento quando o Senhor Ivan veio ao seu encontro.
– Pois não? A que devo a honra de sua visita, Reverendo?
– Desculpe incomodá-lo. O meu assunto é muito sério e delicado, na verdade, preciso de sua ajuda.
– Venha comigo, Reverendo.
Assim dizendo, o Senhor Ivan conduziu o Reverendo Nicos ao seu gabinete particular.
– Sou todo ouvidos. Em que posso ajudá-lo, Reverendo?
– Bem Senhor Ivan, na verdade, não sei como começar.
– A igreja está em dificuldades financeiras?
– Não meu filho, neste sentido tudo está bem, graças a Deus.
– Reverendo, o Senhor está me assustando.
– Não precisa se assustar. Eu é que estou meio “sem jeito”.
– Pois então, fique à vontade. Está em casa, Reverendo.
– Obrigado, filho. Antes de começar, devo perguntar se o Senhor conhece o caso do Senhor Henry.
– Henry? O preso acusado de matar a filha?
– Sim, este mesmo. Vejo que conhece o caso.
– Conheço sim. Nesta cidade tudo se sabe, não é mesmo Reverendo?
O Reverendo notou uma “ponta” de ironia na afirmação de Ivan, mas, continuou:
– Senhor, o problema é que estou tentando auxiliar Henry. Sei que o pobre homem é inocente, que está preso injustamente. Desde que Henry foi preso, venho tentando conseguir um advogado que, por caridade, aceite defendê-lo em troca de honorários humildes.
– Veio até mim por causa da minha sobrinha Ava?
– Sim, na verdade, creio que ela é minha última esperança Senhor Ivan.
– Reverendo, sejamos sinceros, acha que uma mulher pode ser uma boa advogada?
– Acho apenas que qualquer ajuda, nesse momento, Senhor Ivan, é muito bem vinda.
– Muito bem Reverendo, podemos falar com Ava agora se o Senhor quiser.
– Quero, quero sim, meu filho.
– Espere um instante, vou chamá-la. A propósito, o Senhor aceita algo para beber ou comer?
– Não, muito obrigado.
Ivan passou pela cozinha para ir até onde Ava estava, quando foi abordado por Ambrozina, a negra criada, que tanto espanto causou ao Reverendo:
– Senhor Ivan, preparei chá e biscoitos para o Senhor e o Reverendo, posso servir, Senhor?
– Pode, leve tudo ao meu gabinete. Obrigado Ambrozina.
Ivan explicou tudo a Ava e ambos foram ao encontro do Reverendo. Ava estava apreensiva:
– Reverendo Nicos, esta é Ava, minha sobrinha.
– Encantado Senhora. – Disse o Reverendo –
– Senhora não, senhorita, Senhor Reverendo.
– Me desculpe.
– Sentemo-nos. – Disse Ivan, “quebrando o gelo” –
– Sirva-se Reverendo Nicos, Ambrozina preparou tudo especialmente para o Senhor.
– Não queria incomodar, Senhor Ivan.
– Não é incomodo, é um prazer, Reverendo.
– Obrigado.
Os três serviram-se de chá e biscoitos. O Reverendo não sabia como iniciar a conversa com Ava.
Ava apresentou-se moderna e impecavelmente vestida em seu tailler cinza, blusa branca muito fina por baixo.
Nesse instante, Ananda, Frida e Augustus, começaram a trabalhar.
– Agradeça à sua criada pelo delicioso chá, Senhor Ivan.
– Não é necessário agradecer, Reverendo, tudo o que Ambrozina faz é de bom coração.
– Sem dúvida. – Respondeu o Reverendo ainda intrigado –
– Bem, vamos ao assunto. Ava, o Reverendo está aqui para falar-lhe, não é mesmo Reverendo? Não se acanhe tanto, fale.
– Minha filha, talvez você seja a salvação de um inocente acusado.
– Como assim, padre?
O Reverendo Nicos relatou a Ava tudo quanto se passara com Henry. Ela ouviu-o com atenção e interesse, mesmo porque, estava sendo assistida pela equipe espiritual.
– Reverendo, devo dizer-lhe que acabo de me formar. Nunca defendi nenhuma causa até o presente momento. Pretendia retornar à França e retomar meu trabalho, a situação me impediu como deve saber, pois é muito difícil sair do país neste momento, ou seja, não sei se poderei ajudá-lo.
– Pode senhorita, ao menos tentar, por caridade?
– Posso pensar melhor sobre o assunto, Reverendo, e responder-lhe depois. É tudo o que posso lhe dizer neste instante.
 – Já é alguma coisa minha filha. Sou-lhe grato de qualquer forma. Agora, se me permitem, devo retirar-me.
– Fique mais um pouco, Reverendo. – Exclamou Ivan entusiasmado –
– Não posso, tenho trabalho a fazer meu filho. Sou-lhe muito grato pela amável recepção.
– Foi bom vê-lo Reverendo, volte sempre que quiser.
– Obrigado.
Ao se dirigir à saída, o Reverendo percebeu que havia um livro aberto sob uma poltrona. Fez menção de pegá-lo para “dar uma olhada”, quando Ava impediu-o quase que de forma enérgica.
– Desculpe Senhorita. Apenas interesso-me por livros, por favor, mais uma vez, desculpe minha indiscrição.
– Está bem Reverendo, peço desculpas por meus modos também.
Despediram-se os três enquanto Ambrozina, curiosa, espiava:
– Senhor Ivan, posso perguntar o que este padre veio fazer aqui?
– Ambrozina, não seja curiosa.
– Desculpe. – Respondeu envergonhada a “estranha” criada –
– Ambrozina, venha cá. – Chamou delicadamente Ava –
– Pois não, senhorita.
– Está muito curiosa com a visita do padre, não é mesmo?
– Estou. Desculpe senhorita, não tenho mesmo nada a ver com isso.
– Vou dizer-lhe o que ele veio fazer aqui. Veio pedir-me para advogar em favor de um amigo seu que está na prisão. Ele crê que o homem é inocente e foi preso e acusado injustamente.
– É mesmo senhorita? Que oportunidade boa para a senhorita, não acha?
– Ainda não sei, devo pensar um pouco.
– A senhorita está com medo?
– Por que diz isso, Ambrozina?
– É porque é o que parece. Parece que a senhorita está com medo.
– Não sei, só sei que devo pensar.
– Se tivesse medo não teria estudado, não é verdade, senhorita?
– Sim, claro Ambrozina, é verdade. O problema é outro, devo pensar melhor sobre o assunto, é só isso.
Ambrozina afastou-se deixando em Ava o sabor do desafio. Ava pensava: “Como, alguém tão simples, podia conhecer seus sentimentos mais profundos”? Ava sentiu medo realmente. Ambrozina, sem querer, alertou-a, chamando-a à realidade. Ela, Ava, agora era uma advogada, os homens gostassem ou não. Estudara, formara-se, mas não se sentia segura de sua posição. Não percebeu de pronto que este era o seu grande desafio, a sua grande prova, a sua maior missão.
Quando a noite chegou e Ava foi deitar-se, conciliar o sono foi difícil para a jovem “Doutora”. Diante de tal dificuldade, a equipe espiritual entrou em ação. Aplicaram-lhe passes tranquilizantes até que Ava finalmente adormeceu. Ananda, Frida e Augustus, falaram com Ava longamente. Ela por fim compreendeu a grandeza de sua tarefa e aceitou-a de ânimo firme, prometendo aos bons amigos, empenhar-se.
A equipe sentiu uma alegria enorme diante do primeiro sucesso de sua missão.

De volta a seu pequeno aposento, o Reverendo Nicos pensava na criada negra e na inexperiência de Ava quando Rafael, o seminarista, interrompeu seus pensamentos:
– Reverendo, posso falar com o Senhor?
 – Sim meu filho, o que deseja?
– Desejo saber sobre a sobrinha do Senhor Ivan. Correu tudo bem?
– Mais ou menos, ela ficou de pensar sobre o assunto, mas, me diga uma coisa Rafael, você sabia que o Senhor Ivan tem uma criada negra?
– Sabia sim senhor.
– Por que não me disse?
– Isso faz alguma diferença Reverendo?
Diante da pergunta feita com tamanha naturalidade e, despojada totalmente de qualquer preconceito, o Reverendo quase se desculpou:
– Não, Rafael, não faz nenhuma diferença. Apenas estranhei. Negros são incomuns em nosso país, como sabe.
– Sim, sei. O Senhor Ivan deve ter seus motivos para ter uma criada negra, não é mesmo, Reverendo?
– Sim, claro, deve ter.
– Se precisar de mim, Senhor Reverendo, sabe onde me encontrar.
– Obrigado Rafael, Deus o abençoe.
Sem que percebesse, o humilde seminarista acabara de aplicar uma lição em experiente “servo do Senhor”.
Após a saída de Rafael, o Reverendo Nicos continuou a pensar em todos os detalhes do dia. Pensou no livro que a Senhorita Ava protegeu tão energicamente. Seria uma espécie de leitura proibida?
Deixou seus pensamentos para enfrentar outra situação. Iria ver Margareth.
– Boa noite Reverendo. É muito bom vê-lo, sinto-me tão só!
Ananda e seus companheiros estavam presentes. A tristeza da mãe tocou a menina profundamente. Frida e Augustus tiveram de interferir e auxiliar Ananda a recompor suas forças.
– Margareth, Deus a abençoe e fortaleça minha irmã.
– Assim seja Reverendo. Alguma novidade?
– Talvez. –Falando assim, o Reverendo narrou a Margareth o seu encontro com Ava. Imediatamente ela ficou animada –
– Calma Margareth, a moça ainda não respondeu se aceita ou não o caso, seja prudente. O ânimo antecipado pode trazer frustrações terríveis.
– Desculpe. – Disse Margareth voltando a assumir uma postura triste –
– Margareth, assim também não! Querida, aprenda a dosar suas reações, analise as situações de maneira mais equilibrada, mais friamente. As reações extremadas são inerentes aos jovens inexperientes. Pense nisso sem pensar que estou repreendendo você. Amadureça, está na hora e é preciso.
– Tem razão. Não vou pedir para que me desculpe novamente. Prometo pensar no que me disse.
– Isso, assim é que se fala. O que nos resta a fazer agora é orar. Orar com fé e total confiança na providência Divina.
– Farei isso, Reverendo.
– Eu farei também. Lembre-se, pode contar comigo. Hoje e sempre, Margareth.
– Sei disso. Deus o abençoe sempre, Reverendo.
Margareth, após dizer estas palavras, sentiu forte emoção. Não pôde conter as lágrimas que escorreram sobre seu rosto aliviando a dor que oprimia seu peito. Vendo-a assim, tão frágil, o Reverendo sentiu forte desejo de tomá-la em seus braços e aliviar-lhe a dor. O passado fez com que ele não cedesse ao impulso. Apenas tomou suas mãos, beijou-as com afeto e prometeu vê-la no dia seguinte, ao que ela assentiu.
Os três trabalhadores espirituais assistiram a cena muito comovidos. Frida e Augustus perceberam que Ananda havia perdido, devido à forte emoção, a oportunidade de conhecer uma das muitas verdades que deveria descobrir. Seria fácil se o controle de suas emoções estivesse totalmente ajustado.
– Ananda, para que nosso trabalho tenha êxito, você deve controlar mais as suas emoções. Compreendemos seu envolvimento, mas, devemos adverti-la que sem controle, nosso trabalho será muito mais difícil, pode até mesmo fracassar.
– Me perdoem irmãos, me ajudem, por Deus, me ajudem!
Nesse instante, Frida e Augustus submeteram Ananda a um tratamento especial de reajuste.

Henry vivia dias de desespero na prisão, chegando até mesmo a pensar em suicídio. Naquela manhã, porém, teve uma visão que fortificou seu espírito: Ananda. Ao vê-la, em estado de vigília, Henry mal podia crer. Com lágrimas nos olhos, disse:
– Filha querida, não fui eu. Deus sabe o quanto a amo. Estou aqui injustamente. Nunca, jamais eu a machucaria meu amor.
– Sei disso papai, fique tranquilo, confie em Deus. Aceite com humildade a ajuda que lhe chegará, confie.
– Confiarei minha filha.
A visão se desfez. Henry nunca mais pensaria outra vez em suicídio. Nem negaria a ajuda de uma mulher, no caso, de uma advogada.

Assim como o Reverendo, Henry nunca diria a ninguém sobre sua visão. O medo da desconfiança não permitia a revelação. Isto aconteceu muitas vezes, com várias pessoas, sob as mais diferentes circunstancias.

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