Nesse espaço

Textos psicografados, romance, Umbanda, Espiritismo compõem a tônica do A Alma das Coisas.
By
Annapon ( escritora e blogueira )

Romance Mediúnico

A Missão das Quatro Estações

Olá amigos leitores do "A Alma das Coisas"! O blog está com uma novidade, romance mediúnico totalmente gratuito. Esse é mai...

sábado, 10 de setembro de 2016

Clara e Fernando ( Romance mediúnico )

Clara e Fernando


(Quando a Guerra Acabar)

primeiro romance mediúnico psicografado por Annapon ditado pelo espirito Nicolau




SINÓPSE DA OBRA CLARA E FERNANDO
Romance mediúnico transmitido pelo espírito Nicolau.

Fernando é filho único de um casal problemático.
Assim que veio ao mundo, Fernando foi imediatamente rejeitado por seu pai que, ao tomá-lo nos braços pela primeira vez, se sentiu desconfortável com a presença do recém-nascido.
Helena, sua mãe, só veio a conhecer este desconforto que Carlos, seu marido, sentia pelo filho, anos mais tarde. Ela atribuía à profissão de Carlos o fato de ele ser sempre muito rígido, ausente e distante de Fernando.
Carlos era militar e a vida profissional o privava de maior convívio com a família. Helena, diante da situação, passa boa parte de sua vida se dedicando exclusivamente ao filho até que o desconforto inicial de Carlos por Fernando passa a ser intolerância culminando este sentimento na separação do casal.
Fernando se sente culpado e, de alguma forma, tenta sanar o mal que pensava ter causado aos pais decidindo também ele por seguir a carreira militar, dedicando-se totalmente a este objetivo até conhecer Clara e por ela se apaixonar.
O romance do filho abala Helena profundamente e, a partir daí, fatos se sucedem nos quais o ciúme da mãe, antes não manifestado, eclode como fosse algo já há muito conhecido e poderoso.
Helena tenta de todas as formas separar seu filho da mulher amada armando as mais vis e desumanas ciladas para a moça até que ela própria se torne vitima de seus atos vindo a adoecer seriamente.
A espiritualidade amiga atua no romance através da mediunidade de alguns personagens, como por exemplo: a avó paterna de Fernando, o médico que passa a cuidar da saúde de sua mãe, etc.
Carmas individuais e coletivos compõem a estória, uma vez que a mesma se passa na época da guerra do Vietnã. Guerra na qual os personagens principais, pai e filho, lutam juntos e, ali, em meio a condições hostis e violentas, descobrem o valor dos laços que os unem.
Resgates espirituais e responsabilidades presentes, as escolhas que todos temos a chance de fazer e as conseqüências destas mesmas escolhas são ensinamentos que esta estória traz consigo.
A vida em sua infinita continuidade através das reencarnações é o tema principal deste romance que conta ainda com muita emoção.



Índice

─ FERNANDO E SEUS PAIS –
─ AS ARMAS ─
─ O TORNEIO –
─ A SEPARAÇÃO DE HELENA E CARLOS –
─ UMA CONVERSA –
─ FERNANDO E CLARA -
─ REAPROXIMAÇÃO -
─ O DESENCARNE DE OTÁVIO -
─ ESCLARECIMENTOS-
─ A COMUNICAÇÃO DE OTÁVIO -
─ A TRAMA DE HELENA -
─ O VIETNÃ -
─ UMA VITÓRIA -
─ UMA NOVA CHANCE -
─ O DESCONTROLE DE HELENA -
─ A CONVOCAÇÃO -
─ O VIETNÃ E CARLOS -
─ MÁRIO -
─ UM PLANO CRUEL -
─ A DOENÇA DE HELENA -
─ A GRADUAÇÃO DE FERNANDO -
─ FERNANDO NO VIETNÃ -
─ A GRAVIDEZ DE CLARA -
─ CONFRONTO FATAL -
─ LEONARDO -
─ APÓS A MORTE -





Era um jovem cheio de esperanças e medos. Filho de pais separados e infelizes.
As armas chegaram-lhe cedo às mãos, ofertadas por seu próprio pai, um oficial do exército.
Seus pais chegaram à separação por conta de profundos choques e mágoas diárias causadas pela intolerância e incompreensão.

Apesar de sua aparente serenidade, Helena, como a maior parte dos seres humanos, tinha arestas a serem aparadas.
Não conseguia aceitar a posição do marido, oficial linha dura, odiado e temido por muitos jovens.
Discernir era difícil, o que era justo? O que era necessário? Seria a violência o melhor caminho? Ou a serenidade traria melhores resultados.
A mente do jovem vagava confusa.

A hora era chegada. Teria de apresentar-se às armas já que seguira os passos do pai e tornara-se sargento em detrimento à vontade da mãe.
O medo. Ele voltou. A insegurança. Esta nunca o havia deixado.
Por quê? Qual era o motivo?
Acreditava ser forte e capaz, acreditava tudo poder. Seus pedidos eram ordens  mas, onde estava a ordem das coisas neste momento?.
Nosso pobre rapaz não sabia. Debatia-se noite e dia, temendo enfrentar o dia, o dia da batalha, ou seria o dia da guerra?.

Helena seguia sua vida, tentando enfrentar seu maior medo. O dia que levaria o filho ao ápice de sua criação quase violenta. O dia no qual o rapaz teria de partir. Partir para a guerra.

Fernando, filho único de uma união mal sucedida sentia-se confuso e debilitado. Em vão procurou aconchego ao lado do pai que, excitado, dava-lhe instruções de procedimentos de guerra. Não demonstrando nenhuma preocupação quanto ao bem estar do filho. Qual fosse ele próprio, criava situações, matava, corria, tornava a matar. Derrotava, era condecorado. Era o máximo.

Fernando  passou a refletir. Por quê? Qual era o motivo pelo qual ele teria de matar ou morrer solitário em um campo de batalha frio e desconhecido?
Qual era o sentido disso tudo?.
As respostas viriam doloridas, mas, viriam.




 – FERNANDO E SEUS PAIS –

Helena e Carlos conheceram-se ainda bastante jovens. Ele, sonhador, ela pés no chão.
Ambos frequentaram a mesma escola em uma cidade de porte médio. Suas vidas eram tranquilas até que a paixão os surpreendeu. Viviam um para o outro até que o serviço militar levou para si o jovem sonhador.
Helena sentia sua falta. O serviço militar exigia muito de seu amado, porém, seguiram sustentando o sentimento que nutriam um pelo outro.


Aos poucos, Carlos mostrava-se mais agressivo e arrogante. Não que nunca tivesse sido antes, ele era, mas, nem tanto. Helena atribuía a isto, o excesso de trabalho e o stress. Acreditava que, após o casamento, tudo iria voltar a ser como antes.
Casaram-se, jovens e cheios de sonhos, promessas.
Helena então começou a perceber as enormes diferenças que existiam entre ela e o marido. Conviver tornou-se tarefa difícil até que veio a gravidez e com ela uma nova esperança de felicidade e bem querer.
Pensou ser este o grande trunfo para a sua realização. Foi, por pouco tempo.
No decorrer da gravidez de Helena, Carlos tornou-se ainda mais hostil e distante. No início, alegria, com o passar dos meses, distância, agressividade aumentada, irritação.
Parentes e amigos não entendiam. Esforçavam-se por ajudá-los, porém, tudo era em vão. Qual seria o motivo? O que teria acontecido para que Carlos tivesse mudado tanto?

Chegou o dia tão esperado, veio ao mundo, Fernando, filho de Helena e Carlos.
Alegria, abraços, presentes, cumprimentos. Traz, então, a enfermeira, o pequeno em seus braços, entregando-o ao pai orgulhoso.
Carlos pegou então o pequenino recém nascido em seus braços e nesse instante sentiu um desconforto estranho.
O que seria? Por qual motivo sentiu-se desconfortável ao tomar em seus braços o filho tão esperado?
Procurou livrar-se o mais rápido que pode do bebê e começou a refletir.
Será que não havia amadurecido a idéia de ser pai? Sentia ciúme de Helena que, dali por diante teria de dedicar-se exclusivamente ao bebê?
Não conseguia encontrar a razão. Então, esforçou-se por esquecer o desconforto sentido e correu feliz ao encontro de Helena, e dos familiares e amigos que no hospital se encontravam.

Os meses se passaram, o bebê crescia forte e saudável. Dinho, como carinhosamente foi apelidado, era uma criança alegre e normal.
Carlos não participava muito dos cuidados com o filho, o trabalho tomava muito de seu tempo.
Nas horas vagas, quando estava em casa, Carlos preferia ler, ver TV, enfim, envolver-se mais consigo próprio do que com Helena e Dinho.
Certas vezes, ao aproximar-se de Dinho, sentia um frio a percorrer seu estômago e espinha dorsal.  Acreditava que isto fosse pelo fato de não saber como lidar com uma criança, visto que, seu trabalho era uma constante de ordens, gritos e palavrões.
Assim cresceu Fernando.



 – AS ARMAS -

Por volta dos sete anos, o pai, já mais habituado à presença do filho, decidiu que era hora de o menino aprender a manejar uma pistola. Levou-o até o quartel onde trabalhava em um fim de semana e apresentou-lhe o que chamava e acreditava ser o poder. Uma arma.
Desmontou-a, ensinando ao garotinho o nome de cada peça. Montou-a novamente e saíram para o pátio em direção ao lugar próprio para tiro ao alvo.
Mostrou a Dinho como segurar e mirar. No instante em que o garoto colocou suas pequenas mãozinhas na arma, num gesto brusco, virou-se, apontando a mesma para a cabeça do pai. Olhando-o firmemente.


Por alguns segundos permaneceram assim, até que Carlos tomou-lhe a arma da mão, suando frio e tremendo muito disse ao filho:
─ Nunca, nunca mais repita isto. A arma está carregada. Poderia ter me matado.
 ─ Para que servem as armas?
Diante de tal pergunta, feita em um tom quase que desafiador, Carlos sentiu o mesmo desconforto que havia sentido ha sete anos atrás. Conteve-se, respirou fundo e respondeu:
─  Para uma série de coisas, por exemplo: para caçar animais, para que a polícia possa ir atrás de bandidos, para que os soldados possam ir à guerra e para que se pratique o tiro ao alvo que é um esporte reconhecido”.
─ Está bem papai. Respondeu o garoto satisfeito com a explicação, mas retendo em seu olhar algo de mais profundo.

Carlos não ousou contar a Helena o episódio ocorrido e pediu a Dinho que também guardasse segredo. As armas seriam o segredo deles. Dinho concordou e nada disse à sua mãe.
O tempo passou Dinho, já familiarizado com as armas, atirava muito bem. Logo foi necessário que a mãe soubesse de sua habilidade porque Dinho havia sido convidado a participar de um torneio, promovido pelo quartel no qual o pai trabalhava.
Dinho e o pai uniram-se para contar à mãe o que eles consideravam uma boa nova.
Chamaram Helena, certa tarde, para uma conversa. Helena estranhou muito tal atitude, não tinham o hábito de conversar juntos.
Sentaram-se na sala de estar, que, como todos os cômodos da casa, era bastante confortável. Carlos então tomou a palavra, como era de hábito, e começou a falar:
─ Minha querida, eu e Dinho temos algo a lhe comunicar. Sabemos que teremos que contrariá-la, já que as armas a incomodam.
Helena sentiu seu corpo todo tremer, seus lábios rapidamente tornaram-se frios e também estes, trêmulos. Ouviu o que eles tinham a lhe dizer com a cabeça já começando a lhe doer.
Carlos continuou:
─ Helena, eu e Dinho temos um segredo de muitos anos. Não dissemos antes porque sabíamos que você não concordaria, ficaria preocupada, enfim, quisemos poupá-la, porém, paixão é paixão e assim como eu, Dinho é apaixonado por armas. Desde seus sete anos de idade, compartilhamos este segredo. Ensinei ao nosso garoto o tiro ao alvo e veja, ele gostou tanto que não parou mais de treinar e hoje é um exímio atirador. Decidimos contar a você agora porque nosso garoto foi convidado a participar de um torneio lá no quartel onde trabalho. Ele foi considerado, entre muitos, o melhor para nos representar e, sendo eu um oficial muito respeitado, todos concordaram que Dinho participasse. Não é uma boa nova? Se nosso garoto ganhar não só conquistará o respeito e admiração de todos como também ganhará uma boa quantia em dinheiro. Além do que, quando iniciar sua carreira militar, terá um trunfo a mais que os outros.

Ao ouvir tal afirmação, Helena, ainda não refeita do susto, deu um salto e disse:


─ Como é? Além de ser um atirador também seguirá carreira no exército? Meu filho, isto é verdade?

Fernando, percebendo o descontrole e nervosismo da mãe, abaixou a cabeça e disse baixinho:

─ Mãe, tenho pensado sim em seguir a carreira militar. Por favor, tente me compreender. Eu gosto de tiro ao alvo e também gosto do exército. Isto não quer dizer que eu não vá estudar. Pretendo estudar sim e ser um oficial gabaritado. O tiro ao alvo é mais um esporte que aprendi a praticar bem. Não fique assim tão nervosa mãe. Não corro perigo nenhum, estou apenas escolhendo o caminho que quero seguir na vida.

Helena, tentando recompor-se, respondeu:

─ Vocês dois já decidiram tudo. O que estão fazendo agora é apenas uma comunicação das decisões que tomaram. Pois bem, estou comunicada.

Helena saiu da sala em breves passos tentando conter o pranto o qual deixou cair quando chegou ao seu quarto. Não conseguia entender porque se sentia assim tão transtornada. Gostaria de uma vida diferente para seu filho, no entanto, não podia interferir em suas escolhas. Porque então sentia seu coração tão aflito?
Ela não gostava mesmo da profissão do marido, mas sempre procurou respeitá-la, mesmo porque era do trabalho dele que eles viviam e afinal era um trabalho digno.
Helena procurou acalmar-se e quando melhorou, foi ter com Carlos e Dinho.

Encontrou os dois ainda na sala e disse:

─ Vocês me pegaram de surpresa. Fico muito triste em saber que não tive a chance de participar de decisões assim tão importantes. Vocês não me pouparam e sim me excluíram. Gostaria de fazer um pedido agora a vocês dois, posso?
Carlos e Dinho assentiram.

Pois bem, de hoje em diante, não quero ser, de forma alguma, poupada de nada. Por pior que seja o que vier a nos acontecer, quero que, neste instante, firmemos o compromisso de comunicar, um ao outro, tudo quanto fizermos bem como, tudo o quanto pretendamos fazer. Está bem assim?

Novamente Carlos e Dinho assentiram ainda um pouco chateados com a situação.



 – O TORNEIO –

 Chegou o dia do torneio, Carlos, o pai orgulhoso, apontava o filho aos amigos dizendo:
Vejam, é meu filho. E será nosso grande campeão!

Helena recusou-se a assistir à competição, preferiu ficar em casa aguardando. Já refeita das novidades, aguardava sem ansiedade o retorno do filho.
O torneio começou sem grandes novidades ou acertos consideráveis. Dinho estava se saindo bem, mas não tão bem como se esperava.
No decorrer da competição, outro jovem se fez notar. Todos começavam a perceber que o rapaz estava indo melhor que Dinho. O pai começou a se preocupar e berrar, da assistência, com o filho. Tal intervenção fez com que o desempenho do rapaz piorasse e, os tiros finais, que definiriam o campeão, iriam ter início.
Carlos, nervoso, já começava a praguejar e a arrepender-se de ter inscrito o filho na competição. Já desviava o olhar dos amigos que, intrigados, buscavam fitá-lo como a perguntar:

Onde é que está o nosso campeão?

Os tiros finais foram para Dinho, uma sucessão de erros. Perdeu o torneio.


O campeão, um jovem desconhecido da maioria das pessoas que lá se encontravam, pulava de alegria e correu para festejar com algumas pessoas que o estavam acompanhando.
Louco de raiva, Carlos quis saber quem era o jovem rapaz até então desconhecido.
Informaram-lhe então, que se tratava de um rapaz recém chegado de outra cidade e que Evaristo, seu amigo, o havia inscrito nos últimos dias. Por este motivo, talvez, Carlos não tivesse percebido o nome dele entre os participantes.
Tal informação enfureceu ainda mais Carlos que, imediatamente foi ter com Evaristo.
Evaristo estava junto ao campeão, o que obrigou Carlos a cumprimentá-lo mesmo a contra gosto.
Evaristo preciso falar com você agora, é urgente-  disse Carlos àquele que, até o momento, julgava ser seu amigo - .
Já sei o que vai dizer Carlos veja seu garoto hoje não estava em um bom dia. Não é verdade?
Evaristo, por que não me disse que inscreveria este rapaz no torneio? - perguntou Carlos com a voz alterada -.
Calma Carlos, o que aconteceu foi de última hora. Este rapaz é amigo de minha família. Soube do torneio nos últimos momentos da inscrição e pediu-me para inscrevê-lo. Eu nem mesmo sabia que ele atirava. Para mim foi uma grande surpresa.
A raiva tirou Carlos do sério, mesmo diante da explicação do amigo, não se conformou e passou a agredir verbalmente Evaristo que escutava calado, assustado.
Depois de dizer os desaforos que quis a Evaristo, foi para casa sozinho, não quis nem saber onde e como estava Dinho.
Chegando a casa, Helena pode adivinhar o acontecido, Carlos fechou-se em seu quarto, desnorteado pela raiva.
Sentia-se envergonhado diante dos amigos e superiores. Começou a pensar em como faria para ir trabalhar no dia seguinte. Em pensamento, começou a maldizer o filho. Lembrou-se então, do desconforto que sentiu ao segurá-lo pela primeira vez em seus braços. E pensou que de alguma forma, já estava prevendo que o garoto só lhe traria problemas, gastos e vergonha.
Sentiu raiva até mesmo de Helena, decidiu então dar um basta em tudo. Seu casamento não ia mesmo bem. Tal atitude melhoraria até sua imagem diante dos amigos, pensou Carlos, envolto por ondas vermelhas que a raiva cria.

Dinho chegou à casa cabisbaixo. Evitou falar com Helena, indo direto para o banho.
Helena sentiu seu coração apertar, sentiu angustia e medo. Pobre menino pensou, ainda é muito jovem, precisa de apoio.
Começou a pensar em como faria para ajudar o filho sem que a raiva de Carlos interferisse. Foi em meio a estes pensamentos que viu Carlos surgir em sua frente, petrificado, transtornado, ele disse:
Helena você não pode imaginar como estou me sentindo. O quanto fui humilhado hoje. Estou envergonhado. Diga-me, com que cara vou trabalhar amanhã? Diga-me se for capaz.


─ Fernando fez de propósito. Nunca atirou tão mal. Ele quis me humilhar diante dos outros. Ele deve me odiar e eu não sei por quê. É certo que nunca fui um pai muito atuante, mas é meu jeito de ser. Nunca fiz nada para que ele me odiasse assim.
Ao que, Helena respondeu:
─ Ele não odeia você Carlos, que idéia é essa agora? Um torneio não pode significar tanto assim.
─ Pois para mim significa sim senhora. Eu tenho brio, orgulho, sempre procuro fazer melhor que os outros tudo o que faço. Mas, já o meu filho, este não.
Saiba que esta foi a gota d água. Sempre, desde o nascimento de Fernando que percebo que nós não nos damos bem. Senti isto na primeira vez que o tive em meus braços.
Helena, assustada disse:
─ Como assim, sentiu raiva de um bebê? Do seu filho? Como é isso Carlos, não estou entendendo.
Carlos parou por um instante de falar, olhou pela última vez os olhos úmidos de Helena, dali em diante, não mais se olhariam frente a frente como agora e disse:
─ Não senti raiva, senti algo estranho, um misto de sentimentos, isto não vem ao caso agora. O que quero dizer-lhe é que não quero mais viver ao lado de vocês dois. Você há muito tempo deixou de me amar. Apenas me respeita e tolera, não quero mais viver assim. Não vou suportar viver ao lado de Fernando depois da vergonha e humilhação que me fez passar. Pronto, é isso, está decidido. Vou arrumar as minhas coisas agora. Depois veremos os tramites legais de nossa separação e saiba Helena que o maior responsável pelo nosso afastamento e separação é justamente ele. Desde que este menino nasceu você só viveu para ele, desde então me abandonou e deixou de me amar. E isto é verdade Helena.
Helena, desconcertada, não sabia o que dizer ou pensar, suas idéias se embaralhavam, não conseguia raciocinar. Sabia que seu casamento não ia bem, mas, acreditava ainda poder retomar algo de bom com o marido.
Fernando, sem querer, ouviu a conversa dos pais. Sentiu-se mal ao ser responsabilizado pela separação deles, sabia que não poderia interferir nas decisões que seu pai tomava.
Fernando foi para o quarto pensar. Não entendia porque o pai o estava responsabilizando por algo assim tão importante. Uma separação é uma decisão forte demais. Ele não poderia ser o único culpado.
 Tinha nesta ocasião, quinze anos de idade. Os conflitos que vivia não eram poucos. Não era criança, não era adulto. De repente, o que já era confuso, tornou-se ainda pior, carregar tal culpa, era bastante penoso para ele.
Fernando olhou pela janela e viu o pai, malas nas mãos. Em poucos minutos carregou o porta malas de seu carro, sentou-se à direção e afastou-se bruscamente como que querendo fugir de casa.
Fernando permaneceu na janela ainda por alguns minutos. Não sabia identificar o que sentia. Era alívio? Raiva? Culpa. Realmente, o rapaz não sabia quais eram os sentimentos que naquele instante o tomavam por inteiro. Sem que percebesse, a porta de seu quarto se abriu e Helena entrou, dizendo:
─ Meu filho precisamos conversar.

 ─ Não, não precisamos não mamãe. Ouvi, sem querer, a conversa de vocês, já sei de tudo.

─ Sabe de tudo o que Dinho?.

─ Da separação de vocês por minha causa.


─ Ouça meu filho, ninguém é culpado pela decisão de seu pai. Nem eu, nem ele e tampouco você. Talvez ele já quisesse a separação, só não tinha uma desculpa, como a chance apareceu, ele aproveitou e se foi.
─ Veja Dinho, eu e seu pai já não nos entendíamos há muito tempo. Deveríamos ter tomado esta decisão antes e juntos, mas, como sempre, ele tomou a frente e resolveu tudo a sua maneira.
─ Mãe, se eu não tivesse perdido o torneio, isto não aconteceria.
─ Pode ser, mas creio que, mais cedo ou mais tarde, acabaria acontecendo, por qualquer outra razão, creia em mim.
─ Por que diz isto assim tão firme mãe? Você não gosta mais do papai?
─ Gosto, de uma maneira bastante particular, ou seja, eu o respeito por todos os anos que vivemos juntos e por você.
─ Você queria a separação?
─ Não sei dizer. Mas, no fundo, penso que daqui para adiante, tudo vai melhorar para nós todos.
─ Você sabe por que o papai nunca gostou de mim?
─ Quem foi que disse uma” besteira” dessas meu filho?
─ O ouvi dizendo durante a conversa de vocês.
─ Ele não quis dizer isso Dinho. Só disse que a sensação de ser pai era estranha para ele. Como acontece com várias pessoas.


Fernando fingiu entender a mãe, sentia que ela estava triste e sofrida, preferiu acabar com a conversa, aceitar tudo e ir em frente.

─ O que faremos agora mãe? Nossa vida vai mudar bastante, não é?

─ Vai meu filho, vai sim. Devemos esperar que os papéis da separação corram. Depois, nos ajeitaremos. Não se preocupe com nada há algo que quero garantir-lhe, nada te faltará.
─ Tudo bem mãe, não vou me preocupar.

Fernando e Helena tentavam digerir, cada qual a sua maneira, os fatos acontecidos neste dia.




 – A SEPARAÇÃO DE HELENA E CARLOS –

Helena, ao recolher-se em seu quarto, começou a pensar em tudo o que o marido lhe dissera. Lembrou-se então do nascimento de Dinho, da sua infância. Veio então, em sua lembrança, as brigas com o marido por causa da criança. O afastamento físico de Carlos e sua própria indiferença perante a este fato.
Onde este erro começou? Pensava ela. E foi pensando, retrocedendo os acontecimentos que começou a vislumbrar a realidade.
Não havia se esforçado para recuperar o relacionamento com o marido. Sempre teve em mente que o filho reclamava mais cuidados que seu casamento, mas, no fundo, algum dia teria mesmo amado Carlos. Chegou a duvidar, não se lembrava mais porque o tomara como marido.
Será que foi ilusão de juventude. O encanto que a farda causava nas jovens da época.
Helena estava confusa e ao mesmo tempo perplexa, nunca jamais acreditou que Carlos pudesse se quer pensar em separar-se dela.
A noite passou lenta para mãe e filho.
O amanhecer trouxe a realidade. Agora, estavam por conta deles, teriam que se adequar, mudar de vida, estabelecer novas rotinas, caminhar.


Fernando, durante a noite, pensou muito em como poderia ajudar sua mãe naquele momento.
Era ainda muito jovem, mas, começava a sentir-se responsável por sua mãe, mesmo porque tudo estava acontecendo por causa dele. Pensando ainda na mãe, Fernando sentiu um calor confortável em seu peito. Aquela mulher era muito especial para ele. Além de mãe, era sua grande amiga.Pensando assim, começou a sorrir e a pensar que, dali para adiante, sempre cuidaria dela.
Carlos, ao sair de casa, batendo portas e carregando malas, não teve vontade de procurar ninguém conhecido. Não queria falar sobre os assuntos que o tinham tirado do sério naquele dia.
Pensativo e ainda com muita raiva, dirigiu-se a sua casa de campo, instalou-se lá. Tudo na casa lembrava Helena e Fernando. Carlos então, sentiu o peso de sua atitude. Pensou em Helena, nutria carinho pela sua imagem. Em meio a um turbilhão de pensamentos, acomodou-se num sofá, fechou os olhos e dormiu.
Pela manhã, constatou que a casa não tinha provisões alimentícias e assim lembrou-se mais uma vez de Helena. Tinham estado na casa nas últimas férias e ao saírem não deixaram nada por medo que demorassem a voltar e a comida acabasse por estragar. Helena era cuidadosa, pensou ele. Lembrou-se que havia dado férias ao casal de caseiros e eles só retornariam na próxima semana. Vestiu-se, encheu o peito de ânimo e coragem, pois teria de enfrentar o trabalho e as piadas dos amigos.

Decidiu que, ao chegar, procuraria Evaristo em primeiro lugar, diria que o rapaz que inscreveu no torneio era realmente ótimo e que seu filho mereceu mesmo perder, pois, não tinha se esforçado o suficiente. Agindo assim, pensou Carlos, estaria se colocando à parte de criticas e piadas. Falaria com Evaristo na presença do maior número possível de pessoas assim, estaria a salvo e ainda ganharia a fama de bom perdedor e de homem razoável diante de seus amigos e subordinados. E, assim fez.
O dia passou penoso para Carlos, pensava em Helena, em sua família, na família dela. Afinal teria de prestar contas a todos. Quando pensava em Fernando, sentia-se confuso. Não voltaria atrás em sua decisão, teria de arranjar uma maneira de conduzir a situação. Por enquanto, ficaria na casa de campo, depois arranjaria um apartamento próximo ao quartel, pensou.  Por várias vezes, tirou o telefone do gancho para chamar seu advogado, a fim de comunicar sua decisão e inteirar-se quanto ao processo de divórcio. Divórcio, a palavra soava fria, dura, assim como ele próprio o era. Decidiu então, deixar este dia passar, ligaria na manhã seguinte. Em meio a estes pensamentos, Carlos recebeu uma inesperada visita. Era sua mãe que, aflita com um mau sonho que tivera, decidiu vir para vê-lo. Ao encaminhar-se para a sala de visitas, ainda não sabia que era sua mãe que o esperava e, ao vê-la, abraçou-se a ela como um menino quase chegando às lágrimas. 
Estranhou a atitude do filho, há muito tempo não a abraçava assim. Perguntou então:

─ Como está meu filho?

Carlos, recuperado da emoção, foi logo inquirindo a mãe:

─ Foi Helena que mandou a senhora aqui? Se for saiba que perderá seu tempo.

Dona Violandi que, de nada sabia, confusa disse:



─ Há muito tempo que não falo com Helena meu filho. Estou aqui porque tive um sonho muito ruim com você e minha preocupação foi tanta que telefonar para saber como você estava não me satisfaria, eu precisava vê-lo, abraçá-lo, como acabamos de fazer agora.

Carlos meio desconfiado pediu à mãe que se sentasse. Solicitou café e água para dois e começou a conversar com sua mãe.

─ Mãe, tenho um comunicado a fazer. Preferia falar com a senhora e o papai juntos. Já que está aqui, começarei falando logo com a senhora, depois vou à sua casa e conversaremos mais.

Dona Violandi assustou-se, o tom do filho era sério demais. Começou a tremer.

─ Mãe, eu e Helena estamos separados, ainda não legalmente, isto é apenas uma questão de tempo.

Dona Violandi recebeu a notícia com perplexidade. Ficou imóvel, não sabia o que dizer. Passados alguns segundos, refez-se um pouco e disse:

─ O que houve meu filho?

─ Há muito tempo meu casamento com Helena acabou. Para ser mais preciso, desde que Fernando nasceu.
─ Como assim? O que tem o menino a ver com esta estória?
─ Desde seu nascimento, Helena só teve olhos e cuidados para com ele, me abandonou, se é que a senhora me entende.
─ Não, não entendo. Crianças necessitam de muitos cuidados, muita atenção, especialmente da mãe.
─ Sim claro, porém, há de sobrar algo para o marido não é? Estou enganado?.
─ Não totalmente. Seja mais claro.
─ Mãe, não consigo ser mais claro com a senhora. Não me sinto a vontade. Por favor, entenda.
─ Meu filho, este é um assunto muito sério, temos que falar, concluir.
─ Sim mãe, talvez em sua casa, na presença do papai, a senhora consiga me entender melhor. Depois do trabalho passarei por lá e então conversaremos melhor.
─ Sim, acho sensato. Vou indo então. Cuide-se meu filho.
─ Mãe, por favor, não fale com Helena ainda, espere a nossa conversa, promete?.
─ Sim claro, como quiser. Até mais tarde.

Assim, Dona Violandi volta para casa. Com a cabeça rodando, ora pensava no sonho que tivera, ora pensava nas palavras do filho.

Na noite da briga de Carlos e Helena, ela que, de nada sabia, teve um sonho. Este sonho foi premonitório. As imagens do sonho consistiam em muito choro por parte do filho, Carlos, depois apareciam Helena e Fernando que também choravam muito. Fernando consolava a mãe com muito carinho. As imagens do sonho foram tão vivas e reais  que ela decidira ver o filho naquele mesmo dia. Quando Carlos começou a falar-lhe, Dona Violandi percebeu que ela já sabia de tudo.
Pensava então com ela mesma: “Como isto é possível?”. Será que são realmente tão fortes as ligações entre mães e filhos?. Pensava ela, ainda muito confusa com toda a situação.
Ela havia visualizado, no astral, os acontecimentos, embora não soubesse disso.


No caminho de casa, Dona Violandi encontrou uma velha amiga. Sentaram-se num banco de praça. Como o abatimento no rosto da amiga era muito visível, Laura perguntou-lhe:
─ Aconteceu alguma coisa Violandi? Voce está tão abatida!

─ Prefiro não falar nisso agora. Em outra ocasião falaremos sobre meu abatimento.

A amiga insistiu.

─ Não é problema de saúde, é? Se não me disser, ficarei muito preocupada com voce minha amiga!
─ Não Laura, minha saúde anda bem. São problemas com o Carlos, mas torno a repetir, falo com voce outra hora sobre isto, está bem?
─ Como queira. Se precisar de mim, por favor, sabe que pode contar comigo não é?
─ Sei sim, obrigada. Agora, vou indo, nos falaremos pelo telefone ainda esta semana. Não se preocupe.

Despediram-se, as amigas. Quase chegando a casa, Dona Violandi não sabia como falaria com seu marido. Ele estava bastante doente já há algum tempo. As emoções fortes não lhe faziam bem. Sentou-se então nas escadas, em frente ao seu portão. Teria de ser forte, teria de falar. Deveria usar palavras e maneiras suaves, no entanto, teria de falar.
Ao entrar em casa, encontrou Otávio, seu marido, sentado em sua cadeira predileta, olhando pela janela como se estivesse bem longe dali, pois não percebeu que a esposa entrara.
Otávio. Chamou-o  com voz suave, quase inaudível. Otávio olhou-a, olhar firme e disse:
─ O que foi que aconteceu minha menina?

“Minha menina”, era assim que Otávio chamava carinhosamente a esposa,  desde a época de namoro.

Ela reuniu as forças que tinha, pediu um minuto ao marido e foi até seu quarto. Sentou-se na cama e lembrou-se de fazer uma prece. Voltou à sala, sentou-se muito próxima a Otávio, tomou suas mãos e começou a falar:

─ Amor, não tenho boas notícias. Preciso que voce seja forte para ouvir o que eu tenho a lhe dizer.
─ Diga.
─ Carlos e Helena tiveram um desentendimento muito grande. Carlos virá aqui mais tarde para conversar conosco.
─ Estão se separando. Não é isso?
─ Sim, acho que sim. Carlos virá e nos contará tudo.
─ Não tenha medo de falar comigo minha menina. Ainda não chegou a minha hora. Posso aguentar mais um pouco. Tenha certeza disso. Agora fale tudo o que aconteceu.
─ Está bem. Procurei Carlos, estou vindo do quartel agora.
─ Do quartel ?Mas, porque não simplesmente telefonou? Sabe que o menino não gosta de ser incomodado no trabalho. Sabe o gênio que tem!.
─ Eu sei amor, sei de tudo isso mas meus instintos de mãe falaram mais alto e eu senti que deveria vê-lo. Telefonar não é o mesmo que ver, por isto, fui até lá. E eu estava certa. Carlos está muito triste.


Sabe amor voce vai se surpreender quando eu te contar a reação dele a me ver. Amor, ele me deu um abraço forte e apertado, como quando era ainda uma criança. Durou pouco, mas foi intenso.
─ É menina, as coisas não devem mesmo estar bem. Esperemos então que ele venha.

Otávio e Violandi formavam um casal pacífico. Brigavam muito pouco. Desde a mocidade, se amaram muito. Foram cúmplices e amigos sempre.
Tentaram, em vão, criar Carlos com tranquilidade. Carlos foi uma criança sempre muito agitada e peralta. Escolheu, na mocidade, a carreira militar por causa de um tio que admirava. O tio era” todo autoridade”, todos o obedeciam, ninguém se atrevia a discutir com ele. Sua farda, aos olhos jovens de Carlos, era fascinante, traduzia toda a autoridade e a superioridade que um homem pode almejar. Sonhava com aquilo. Desejava ser igual ao tio. Conseguiu ser até pior. Tornou-se ainda mais autoritário e severo que o tio.
Otávio e Violandi nada puderam fazer para deter o filho. Ele era o total oposto dos pais.

Helena e Fernando, ainda abalados com a situação, tocaram seu dia adiante, cada qual com seus afazeres. Não deixaram de fazer nada. Tomaram suas rotinas e o dia passava calmo. Algumas vezes, Helena pensava em Carlos. O que ele faria agora? Falaria com ela ou simplesmente mandaria um advogado? Teria de esperar. Apenas um pensamento era mais insistente:
Porque Carlos era tão ressentido do filho? Será que a culpada por todo aquele ressentimento era mesmo ela?
Este pensamento atormentava Helena que não conseguia concluir nada. Helena amava o filho, claro, pensava, era seu filho, como não amá-lo?

Porque os pais não conseguiam amar como as mães? Pensava Helena.

Helena foi criada num ambiente católico. Assistia missas, cumpria tradições. Acreditava em Deus e em Jesus de uma maneira bastante superficial. Só rezava na igreja, acompanhando a liturgia. Não questionava a existência de Deus e de Jesus. Sabia apenas que eles existiam. Sabia da história. Era um pouco supersticiosa. Tal comportamento, dificultava ainda mais, para Helena, a travessia pelos problemas da vida porque não acreditava poder ser ajudada. Pensava ter de resolver tudo sozinha.

Depois de encerrado seu expediente de trabalho, Carlos foi ter com seus pais que o aguardavam.
Lá chegando, cumprimentou-os de maneira formal, como era seu hábito.
Acomodaram-se na sala. Havia tensão no ar. Carlos estava visivelmente nervoso e pouco a vontade. A mãe tratou de quebrar o gelo dizendo:

─ Filho, Aurora preparou panquecas deliciosas para o jantar. Janta conosco não é?

Aurora era a empregada do casal. Trabalhava a muitos anos na casa, já era da família. Ajudou Dona Violandi na criação de Carlos e a patroa em retribuição, ajudava Aurora a criar seus filhos que só contavam com ela. O pai saíra de casa quando eles ainda eram muito pequenos.

Quebrado o gelo, Carlos respondeu:

─ Janto sim mãe. Estou com saudades das panquecas da Aurora, diga a ela que capriche no meu prato.

Brincou Carlos pondo-se já mais a vontade.

Jantaram então sem que se tocasse no assunto da separação. Findo o jantar, retornaram à sala e Carlos começou a falar:



─ Mãe, pai, como já sabem, estou me separando de Helena. Por favor, deixem-me falar sem interrupções.

Otávio e Violandi então eram “todo ouvidos”. Carlos prosseguiu já bem mais calmo.
Meu casamento com Helena foi uma ilusão. Casamo-nos muito jovens, como podem se lembrar. Depois, veio a minha carreira que exigia muito, o ponto crucial dos nossos desentendimentos, foi o nascimento de Fernando. Depois que ele nasceu Helena abandonou-me tanto física, como emocionalmente. Passou a me tratar com indiferença.
Toda sua atenção era para Fernando. Deixei o tempo passar nem sei porque. Não quero pensar nisso agora. O que sei é que, neste momento, não posso mais continuar a conviver com os dois. A gota “d´água” foi um torneio de tiro ao alvo que aconteceu lá no quartel. Preparei Dinho por vários meses para o torneio e ele estava indo muito bem, tinha tudo para vencer mas, de uma hora para outra, do nada, apareceu um garoto que foi melhor que ele. Dinho não se esforçou quando percebeu que o garoto era tão bom quanto ele. Não foi forte o bastante para enfrentá-lo e sabem por quê? É triste a conclusão à qual cheguei mas é a pura verdade. Dinho, assim como Helena, não se importa comigo, com os meus sentimentos e valores. Pouco importa para eles como eu me sinta. Não fazem esforço nenhum para me agradar e entender. Bem, diante disso, nada mais tenho a fazer senão tocar a minha vida por minha conta. Não vou desampará-los financeiramente, farei tudo dentro da lei. È isso o que eu tinha a dizer a vocês, espero que possam me compreender. Não quero que se preocupem comigo. Mudei-me para minha casa de campo. Ficarei lá por algum tempo e depois decidirei o que fazer.
Seus pais ouviram com atenção as explicações. Nada disseram, sabiam que argumentar com  Carlos era pura perda de tempo. Quando ele decidia, estava decidido.
Nesse ínterim, Aurora entrou na sala trazendo uma bandeja com café, notou o clima tenso e saiu calada.
Donas Violandi e Carlos serviram-se do café, Otávio tinha de contentar-se com uma xícara de chá, já que sua saúde não mais lhe permitia beber café. Enquanto terminavam o café, Carlos começou a preparar-se para sair. Sua mãe teve vontade de convidá-lo a ficar, porém não o fez. Sabia o quanto o filho era orgulhoso.

─ Bem, vou me despedir de Aurora.

Enquanto Carlos se dirigia à cozinha, Dona Violandi e Otávio olharam-se. Não eram necessárias palavras para que um dissesse ao outro o que estavam sentindo. Carlos então retornou à sala, despediu-se dos pais e encaminhou-se para a porta quando ouviu a voz do pai que dizia:

─ Filho, estamos aqui, por favor, não deixe de nos procurar. Somos velhos, cansados, mas ainda te amamos muito e podemos ser úteis, de alguma forma. Lembre-se disso.

Carlos emocionado agradeceu ao pai sem deixar transparecer a emoção.

Ficaram a sós. Nada disseram. Dona Violandi foi até a cozinha dispensar Aurora, pedir para que se recolhesse e fosse descansar. Encontrou a criada amiga aos prantos.

─ O que foi? Aconteceu alguma coisa?

─ Senhora estou muito triste, não sei o que aconteceu com o Carlinhos mas sinto que ele não está bem. Fiquei nervosa por isto estou chorando. A senhora vai me contar o que está acontecendo?


─ Vou sim minha querida. Fique calma, por favor, não é nada de tão terrível assim como voce está pensando.

─ Carlos e Helena estão se separando, é só isso.

─ Só isso? Dona Violandi, este assunto é muito sério.

─ Eu sei que é, também sei que não é nenhuma tragédia. Estas coisas acontecem.

─ Sim, sei que acontecem mas no caso do Carlinhos tem alguma coisa a mais.

─ Coisa a mais? Que coisa a mais?

─ Não sei explicar. Vou falar sobre ele com os meus amigos lá do centro depois falo com a senhora.
Aurora voce sabe que eu respeito sua religião, mas sabe também que eu não compartilho da sua fé.
─ Ah! Sei, sei sim, um dia a senhora vai entender e passar a acreditar.

Logo após a este diálogo, recolheram-se cada qual ao seu aposento. Otávio já dormia quando Dona Violandi lembrou-se do seu sonho. O sonho a intrigava. Nunca tinha antes previsto acontecimentos. Pensava na religião de Aurora. Será que eles teriam uma explicação para tal fato? Adormeceu em meio a estes pensamentos.




- UMA CONVERSA –

Pela manhã, Laura resolveu telefonar para saber como estavam as coisas. Dona Violandi sentiu-se confortada com a preocupação da amiga e marcaram um encontro para aquela mesma tarde.
Na hora marcada as amigas encontraram-se. Dona Violandi contou tudo o que se passara a Laura com detalhes. Laura por alguns instantes ficou pensativa.
Laura há alguns meses vinha frequentando as palestras de um centro espírita Kardecista. Não comentara o assunto com  a amiga porque sabia da resistência dela. Os fatos expostos a ela por Dona Violandi fizeram-na pensar nas palavras que ouvira semanas antes no centro. O tema da palestra era Laços de família.

─ Violandi, o que acha do sonho que teve? – perguntou a amiga. –

─ Bem, me pareceu muito real. Agora sei que quando um filho sofre, a mãe, devido à forte ligação que tem com o filho, sente e sofre também.

─ O que  voce acha que significa esta ligação?

─ Acho que ser mãe nos possibilita isto.

─ Só isso? É só isso que acha?

─ Onde voce está querendo chegar Laura?

─ Amiga, vou te contar uma coisa. Há alguns meses, comecei a assistir palestras espíritas. Uma amiga, que voce não conhece um dia me convidou e eu fui, no início mais por curiosidade e,  a medida que o tempo passava, eu sentia vontade de voltar e ouvir as belas palavras que lá eram ditas. Sentia vontade de participar das preces e de aprender mais. Comecei então a ler sobre o assunto e fui inteirando-me mais. Descobri coisas maravilhosas e muito valiosas para qualquer pessoa. O que o espiritismo ensina, alivia a alma, dá coragem, nos faz mais solidários e amigos. Fala-se muito em paciência e tolerância. Violandi, pode crer, estou melhorando  muito como pessoa depois que passei a assistir à estas palestras.

─ Laura, que surpresa, nunca pensei em ouvir estas coisas de voce!.

─ Pois é as coisas mudam. Sei que acredita em mim, afinal nos conhecemos há tanto tempo.

─ Laura como já disse estou bastante surpresa. Voce sabe que Aurora freqüenta um centro, não sabe?

─ Sei sim. Ela nunca lhe falou sobre as palestras?

─ Bem que tentou e eu sempre cortei o assunto porém ontem, quando Carlos esteve em casa, ela mostrou-se bastante preocupada com ele. Chegou a me dizer que falaria sobre ele lá.
─ As pessoas têm intuição, ela pode ser uma médium intuitiva.

─ Não entendo, desculpe Laura.

─ Tudo bem. Venha comigo esta semana para assistir a uma palestra.

─ Vou pensar o que isso tem afinal a ver com o meu sonho?

─ Pode ter tudo a ver. Venha comigo um dia, aos poucos voce vai começar a entender como funciona o espiritismo e o que ele tem de esclarecimentos a nos oferecer. Ensina-nos muito sobre vida e morte.

─ Sobre sonhos também?

─ Também minha querida, também.

Para Dona Violandi era complicado render-se a uma religião que não fosse a católica, mas, como confiava muito em Laura, decidiu que iria, só para conhecer.



- FERNANDO E CLARA -

Helena e Fernando iam tocando a vida. Fernando estudava num colégio militar, como não podia deixar de ser.
Devido aos últimos acontecimentos, Fernando manifestou o desejo íntimo de tornar-se militar. Mostraria mais cedo ou mais tarde ao pai o quanto era bom. Começou então a treinar tiro ao alvo num clube para civis, não comentou com ninguém. Os dias se passavam e o desejo de Fernando crescia, seria um exímio atirador, o melhor. Seguiria a carreira militar e seria melhor que seu pai.

A essas alturas, Carlos já providenciara junto a seu advogado, o pedido de divórcio. Depois do fatídico dia de sua saída de casa, não falara mais com Helena nem com Fernando.
Carlos algumas vezes surpreendeu-se sentindo falta dos cuidados de Helena, muito embora dissesse e acreditasse que ela não se importava com ele. Pensava então: A Que tipo de falta era essa que ele sentia?
Não encontrava explicação para tal fato nem tão pouco razão de ser. E assim passava o tempo.

Fernando em meio a seus estudos e treinos, um dia conheceu uma garota que chamou muito a  sua atenção. Foi numa festa de aniversário de um amigo que Fernando conheceu Clara.Logo que a viu, sentiu-se atraído. Foi uma atração  forte, uma simpatia muito grande. Fernando e Clara passaram  a se encontrar com frequência. Clara sentia também atração por Fernando. Começou ai um namoro. Fernando resolveu então compartilhar esta alegria com Helena contando-lhe sobre Clara. Helena reagiu de forma estranha dizendo:

─ Dinho, voce está me dizendo que está namorando sério? Que está apaixonado com esta idade?

─ Sim mãe. Qual é o problema?

─ O problema é que voce é muito novo para isso. Tem muito que estudar ainda e namoradas nesta idade só atrapalham.

─ Você se engana, Clara tem sido meu incentivo.



─ Filho, pense bem. Por hora não quero mais falar sobre isso.

Helena mostrou-se irritada com o namoro do filho. Não tinha, naquele momento, com   quem dividir o problema. Pensou  em  sua ex sogra,  já que seus pais moravam distante.
Mantinha com Dona Violandi, boas relações, apesar de nunca terem sido muito íntimas. Helena estava muito nervosa e irritada então, começou a refletir:

Será que estaria sentindo ciúme do filho?. Sabia que muitas mães se sentiam assim,  logo, julgou seu sentimento como normal, natural.

Mesmo assim, telefonou para Dona Violandi e pediu um encontro. A ex sogra estranhou a atitude de Helena, mas aceitou recebê-la. Afinal, ter notícias do neto era sempre bom e, relacionar-se bem com Helena também era algo positivo.
Dona Violandi nessa ocasião já tinha ido assistir a algumas palestras com Laura. Estava agradavelmente surpresa com o espiritismo. Fato que só viria a auxiliar a todos.Marcou encontro com Helena para a tarde seguinte e, nas suas preces noturnas, pediu auxílio a Jesus para que o encontro com Helena fosse produtivo e bem conduzido. No outro dia, como combinado, chegou Helena. Cumprimentou Aurora e Otávio um pouco sem jeito, meio inibida. Dona Violandi surgiu na sala, abraçou com carinho a ex-nora e tratou de colocá-la o mais a vontade possível. Passados os primeiros minutos do reencontro familiar,  convidou Helena para um chá na varanda. Ela imediatamente aceitou. Sentaram-se confortavelmente e Helena começou a falar:

─ Desculpe se a incomodo, é que tenho um problema com Dinho que necessito compartilhar com alguém que seja familiar, já que, com Carlos, não posso mais contar.

Helena tinha as mãos frias e suadas, típicas de quem está com os nervos à flor da pele. Dona Violandi percebeu e tentou acalmá-la.

─ Helena minha filha, sabe que pode contar sempre conosco. A queremos muito bem e amamos nosso neto. Acalme-se, não existe nada neste mundo que não possa ser resolvido. Vamos lá, fale.

─ É que Dinho arranjou uma namorada. Estão namorando sério e ele ainda não tem dezesseis anos. Temo pelos seus estudos, pela piora de seu relacionamento com o pai se seus estudos forem prejudicados. Estou me sentindo muito só. Não sei o que fazer, como agir.
─ Nesta idade, é natural que os jovens se apaixonem. Não foi assim com voce?

─ Sim, não sei, estou confusa.

Neste exato instante, Dona Violandi que era bastante intuitiva, percebeu que o mal estar de Helena tinha raízes profundas. Não conseguia entender bem ao certo, sentia que algo ali não ia nada bem.

─ Helena, a única coisa que me ocorre para lhe dizer agora é que tenha calma, paciência. Esta paixão pode terminar amanhã, voce sabe que os jovens são assim. Não se consuma. Ore por seu filho. Mais uma coisa, não se oponha ao namoro dele porque, se assim voce fizer, fortalecerá ainda mais a paixão que ele está sentindo neste momento. Os jovens gostam de nos desafiar.

─ Mas, e se os estudos dele forem prejudicados? É a mim que todos vão culpar.



─ Não pense assim. Acompanhe a vida de seu filho. Voce saberá perceber como ele está  se saindo nos estudos. Se realmente perceber que este namoro o está de alguma forma prejudicando, volte e tornaremos a falar. Agora calma, tenha fé em Deus. Ele nunca nos desampara.

Helena sentiu tanta firmeza nas palavras da ex-sogra que chegou a surpreender-se.Terminaram o chá e a conversa. Helena preparava-se para sair quando, de repente, Carlos estava na sua frente. Surpresa e desconcertada, não sabia o que fazer. Desculpou-se  dizendo que não sabia que poderia encontrá-lo na casa da mãe naquela hora do dia. Carlos com sua inabalável frieza, nada respondeu. Sentiu que era uma boa oportunidade para enfim falarem sobre o divórcio.

─ Eu também não esperava encontrá-la aqui Helena. Tudo bem?

O tom de voz de Carlos era grave e distante. Mesmo que Helena quisesse, não conseguiria falar sobre o namoro do filho com Carlos. Não neste momento.

─ Sim, está tudo bem. Vim apenas fazer uma visita.

─ Voce parece nervosa Helena.

─ Carlos eu não esperava mesmo vê-lo hoje, é isso. Fiquei mesmo um pouco nervosa afinal não nos falamos já há algum tempo.

─ Sim, pode me dar um minuto?

─ Claro, fale.

─ Na próxima semana meu advogado irá procurá-la. Explicará como se dará o processo de divórcio. Acho melhor que ele lhe explique assim não ficarão dúvidas.

─ Certo Carlos, receberei seu advogado. Isso é tudo?

Helena, refeita do choque que foi encontrar Carlos, já falava com mais frieza.

─ Sim Helena, isso é tudo. A propósito, como vai? Está faltando alguma coisa para voce?

─ Não Carlos, não nos falta nada.

─ Quero que saiba que se precisar de alguma coisa pode contar comigo. Não pretendo desampará-la.

─ Sim, obrigada.

Helena respondeu secamente às perguntas de Carlos. Cumprimentou todos rapidamente e saiu quase correndo. Os sentimentos em seu peito se misturavam. A angústia a consumia. Queria chegar logo em casa para refazer-se desse dia.

Carlos, desconfiado, perguntou  o motivo da visita de Helena.Sua mãe repetiu o que Helena dissera, sem convencer o filho.
Carlos, ao deparar-se com Helena, sentiu o mesmo carinho de sempre. Gostava dela de uma maneira muito terna e suave. Helena era a única pessoa que despertava em Carlos estes sentimentos que eram para ele, bastante confusos. Apesar disso, não deixaria de separar-se por que, como mulher, não tinha Helena há muito tempo. Carlos sentia-se confuso, perdido. O que realmente sentia por Helena? Nenhuma explicação vinha à  mente. Por um instante pensou em Dinho. Como estaria ele? Livrou-se rapidamente dos pensamentos e foi ter com seu pai. Afinal foi até a casa dos pais naquele dia porque precisava que o pai lhe emprestasse algumas ferramentas que ele usaria na casa de campo.



Nada é por acaso, sabia. Percebeu que o encontro do filho com Helena fora arranjado pela espiritualidade. Suas preces estavam sendo atendidas embora não pedisse nunca para que eles reatassem e sim que conseguissem viver em paz. Vendo-os conversar, Dona Violandi sentiu-se muito bem. Agradeceu à Deus e à Jesus pelo ocorrido assim como aos amigos do plano espiritual que tanto a estavam ajudando. Percebia a cada dia, o valor imenso do espiritismo em sua vida. Sentia-se gratificada.





- REAPROXIMAÇÃO -

Depois de pegar o que precisava, Carlos despediu-se de todos e foi para a casa de campo a fim de realizar alguns pequenos reparos. Outra surpresa. Sentado nos degraus da porta da casa estava Dinho. A surpresa foi tão grande que Carlos deixou cair no chão todas as ferramentas que trazia. Dinho apressou-se em ajudá-lo. Ferramentas a postos, Carlos então perguntou:

 ─ O que faz aqui? Como soube que me encontraria?

─ Telefonei para o quartel.

─ O que quer?

 ─ Preciso falar com o senhor.

Entraram em casa, pai e filho. Sentaram-se e Dinho começou a falar:

─ Peço desculpas pelo torneio, quero que saiba que não fiz de propósito.

 ─ Vamos deixar esta história para lá. Já passou. Acabou.

 ─ Decidi-me pela carreira militar.

─ É mesmo? Que bom.

─ Pretendo também continuar os estudos. Quero ser um bom oficial.

─ Certo, fico feliz com isso.

─ Tem outra coisa que quero lhe contar. Falei com a mamãe. Ela não aceitou nem compreendeu.

─ O que é? Pode falar.

─ Estou namorando.

─ Namorando? Que tipo de namoro?

─ Estou apaixonado por uma garota e estamos namorando.

─ Na sua idade Dinho as paixões vão e vêm, isto é normal. Só não vá fazer besteira.

─ Mamãe não gostou da idéia.

─ Talvez seja por que está preocupada com voce. Com seus estudos, carreira, etc.

─ Vim até aqui na verdade para pedir sua ajuda.

─ Que tipo de ajuda?

─ Não sei como lidar com a mamãe. Todas as vezes que tento falar com ela sobre a Clara ela desvia o assunto.

─ Deixe prá lá, as mulheres são assim mesmo, ciumentas.

─ Fico confuso. Às vezes fico até mesmo nervoso com ela.

─ Tenho um conselho: Mostre a ela que seus estudos vão bem, não se perca nos trabalhos que tem à executar e muito cuidado com esse namoro. Voce sabe que namoro além da conta pode trazer problemas, não sabe?

─ Do que o senhor está falando?

─ Gravidez, doenças.

─ Clara é só minha namorada. Não fazemos sexo.

─ Menos mal. Mas, se acontecer se por acaso voces chegarem ao sexo, cuide-se.
Existem bons preservativos nas farmácias. Não deixe de comprar.

─ Tudo bem pai. Estou feliz em ter vindo falar com o senhor.

─ É, estou contente também.



Finda a conversa, Dinho ofereceu-se para ajudar o pai com os reparos. Carlos aceitou e o clima entre eles foi sereno, amigável. Sem que percebessem, a noite caiu e um grande temporal se aproximava. Carlos então sugeriu que Dinho passasse a noite lá com ele. Dinho aceitou, e Helena? Como faria para avisa-la? A casa de campo não tinha telefone. Lembraram-se então do armazém que ficava mais ou menos próximo da casa. Foram até lá. A chuva começou a cair e em poucos minutos transformou-se em um imenso temporal. Ambos conseguiram entrar no armazém. Pediram  para usar o telefone. O aparelho foi-lhes entregue, porém estava mudo. O temporal havia atingido a rede telefônica e a energia elétrica. Tudo se transformara num intenso breu. Cortado apenas pelos raios que caiam sem parar. Nada podiam fazer. Sabiam que Helena se preocuparia, mas, diante dos fatos, o melhor a fazer seria mesmo esperar pela manhã seguinte. Ajeitaram-se no armazém. O dono ofereceu-lhes acomodações e jantar. Dormiram ao som da tempestade.

Nesse ínterim, Helena chegava às portas do desespero. Não sabia o que fazer. Já era muito tarde e Dinho não aparecera em casa. Em seu desespero, procurou nas coisas de Dinho pelo número de telefone de Clara. Sentia um misto de raiva e preocupação. E se ele estivesse apenas namorando e tivesse perdido a hora? Ela passaria por descontrolada e chata. Não, esperaria mais um pouco. Se Dinho não chegasse, então ligaria. As horas se passavam. A casa de campo ficava à alguns quilômetros de distância da casa de Helena. O temporal que por aqueles lados caiu com toda a força não atingiu o bairro de Helena, ela nem imaginava o que realmente estava acontecendo nem tampouco com quem Dinho estava. A tensão de Helena com o passar das horas só crescia. Até que não pode mais esperar. Muito tensa Helena telefonou para a casa de Clara. Uma voz masculina respondeu. Já era madrugada e o homem atendeu ao telefonema sonolento.

─ Desculpe o horário meu senhor,  preciso urgente falar com Clara.

─ Quem fala?

─ Sou mãe do namorado dela.

─ Ah, sim. Aconteceu alguma coisa com Fernando?

─ Como? Ele não está ai com Clara?

─ Não minha senhora. Nem vi Fernando por aqui hoje.

─ Deus! Exclamou Helena do outro lado da linha.

─ O seu filho não chegou a casa minha senhora?

Aos prantos, Helena nem conseguia responder às perguntas do pai de Clara.

─ A senhora precisa de ajuda? Quer falar com Clara? Espere apenas um minuto. Vou chamá-la.

Clara, que dormia profundamente acordou sobressaltado com os “chacoalhões” insistentes do pai e foi atender Helena.

─ Dona Helena? É Clara. O que houve?

─ Clara meu filho não chegou a casa até agora. Voce sabe de alguma coisa?

─ Bem Dona Helena a única coisa que sei é que Fernando estava disposto a ir procurar o pai para conversar.

─ Como? Procurar o pai?

─ Sim, conversei ontem a tarde com ele pelo telefone e ele me disse que queria procurar o pai.

─ Sabe se  encontraram-se?
─ Não. Só sei da intenção que Fernando teve. Mais nada. É a única coisa diferente que sei sobre ele.

─ Está bem Clara. Desculpe o incômodo.



─ Não é incômodo nenhum Dona Helena. Só que agora estou preocupada também. O que pretende fazer?

─ Ainda não sei. Vou ligar para minha ex sogra.

─ Pode me dar notícias?

─ Claro. Voce também. Se Fernando se comunicar, por favor, me avise.

O desespero de Helena tornou-se então quase loucura. Resolveu ligar para D.Violandi.
Aurora respondeu bastante sonolenta.

─ Aurora?

─ Sim.

─ Aqui é Helena. Preciso falar urgente com Dona Violandi.

─ Aconteceu alguma coisa?

─ Dinho ainda não chegou em casa Aurora. Ele nunca fez isso antes. Estou desesperada, chame D.Violandi.

─ Sim, claro . Espere só um pouco.

Aurora bateu a porta do quarto da patroa que, imediatamente estava de pé.

─ Senhora, Helena está ao telefone muito nervosa. Dinho não apareceu em casa até agora.

D.Violandi atendeu Helena. Ouviu a história. Inclusive sobre a intenção de Dinho de procurar o pai.Ela começou a pensar e a orar mentalmente, depois de alguns segundos, disse:
─ Helena. Carlos está morando na casa de campo de voces. Se Dinho queria procurá-lo, só pode ter ido para lá. Depois que Carlos saiu daqui, foi para lá.

─ É mesmo ?

─ Sim minha filha.

─ Na casa não há telefone. Disse Helena um pouco mais animada.
─ Vamos esperar até amanhã de manhã minha filha?

─ É, só isto nos restará, mas, espere. Tenho o telefone do armazém que fica próximo à casa. Vou ligar. Ligo para a senhora em seguida.

─ Está bem.

Dona Violandi sentia que tudo estava bem e se Dinho estivesse mesmo com o pai, que bom seria!
 Depois de alguns minutos Helena ligou novamente.

─ D.Violandi parece mentira mas, Dinho está com Carlos. Não sei se rio ou se choro.

─ Fique bem minha filha. Viu? Este sumiço até que foi bom. Mas, afinal, o que foi que aconteceu para que Dinho não telefonasse?

─ Foi um temporal que caiu por aqueles lados. Ficaram sem telefone nem energia. A cia telefônica conseguiu só agora ha pouco consertar os cabos . Sinto-me melhor, vamos descansar. Amanhã conversaremos.Obrigada .

Helena sentiu-se aliviada ao ter notícias do filho, ao mesmo tempo, sentia-se traída. Porque Dinho falou com Clara e não com ela sobre falar com Carlos? Porque Clara e não ela participou desta importante decisão?

Veio o conflito. Helena, ao invés de descansar, remoia a decisão e iniciativa do filho a sua revelia.

O dia finalmente raiou. O céu estava limpo, a tempestade deixará um agradável aroma de terra e verde no ar. Dinho e Carlos prepararam-se para deixar a casa de campo.


Durante a noite, Carlos teve um sono agitado e, em alguns momentos, pegou-se observando Dinho que dormia muito próximo a ele. Ainda sentia desconforto em sua companhia mas, ao mesmo tempo, sentia carinho. Afinal era seu filho.

Pai e filho seguiram seus rumos. Ao chegar em casa, Dinho encontrou Helena muito abatida.

─ Desculpe mãe. Eu não tive a intenção de preocupá-la,  é que...

─ É que,  o que? Respondeu irritada e agressiva Helena.

─ Calma mãe,  vamos conversar.

Helena, sem disfarçar o mau humor, continuou:

─ Vejam só. Quer dizer que foi procurar seu pai. Muito bem Dinho.
Sabe, depois de passar uma noite de cão, só tive idéia de onde voce estava depois de falar com Clara. Ela sim tinha idéia de onde voce estava.

─ O que está dizendo mãe?

─ Estou dizendo que Clara sabia que voce estava com seu pai.

─ Espere. Ela não sabia. Podia imaginar mas não sabia.

─ Certo. E eu ? Como acha que me senti? Como acha que passei a noite?
Eu rapazinho, eu não fazia a mínima idéia de onde voce pudesse estar. Entende isto?

─ Mais uma vez, a única coisa que posso dizer-lhe é que me desculpe.

Fernando saiu, deixando Helena a falar sozinha.
Helena sentia tanta raiva que mal podia se controlar. Em face à indiferença de Dinho, começou a chorar compulsivamente. Dinho, escutando o choro da mãe, aproximou-se e tentou acalmá-la.
Helena acalmou-se, Dinho tomou seus afazeres depois de contar à mãe como aconteceu seu encontro com o pai.
Depois que Dinho saiu a raiva de Helena por Clara crescera. Como ela sabia onde Dinho podia estar e ela, a mãe, não?

A idéia de tornar-se campeão de tiro ao alvo não abandonava Fernando. Ele continuava treinando rigorosamente. Ainda mais agora que reatara com o pai. Ao final de seus treinos e estudos, Fernando ia encontrar-se com Clara.

Naquele dia, Clara, ao vê-lo, abraçou-se a ele com força. Fato que o deixou intrigado.

─ O que foi Clara?

─ É que sua mãe ligou de madrugada. Não sabia de voce. Fiquei nervosa e preocupada. A única coisa que eu sabia, eu disse a ela. Que voce pretendia encontrar-se com seu pai. Depois, ela ficou de me ligar, se tivesse notícias suas. Não o fez. Senti-me pior depois que liguei para ela porque ela já sabia de voce e não me avisou. Ignorou minha preocupação. Simplesmente desculpou-se, alegando cansaço.

─ Clara, ignore voce também a minha mãe. Acho que ela está sentindo ciúmes. Conversei com meu pai a nosso respeito e ele me aconselhou a não me desviar dos meus estudos e afazeres. Só assim, poderemos ter minha mãe sob controle.

─ Qual é o problema com ela Fernando?.

─ Não sei Clara. Ciúmes como disse. Talvez, mas na verdade, não sei dizer com certeza.
─ Tudo bem, faremos tudo para que ela nos deixe em paz. Certo?

─ Certo!

E assim, Fernando e Clara tocavam suas vidas, com Helena mais ou menos a parte.




- O DESENCARNE DE OTÁVIO -



Laura, Aurora e Dona Violandi, passaram a frequentar o mesmo centro espírita, nos mesmos horários. Seu aprendizado revelou-se bastante produtivo. Participavam dos cursos e palestras. Liam livros. Reuniam-se para comentar o conteúdo dos livros. Passaram a trabalhar juntas, na mesma casa espírita. Tal atividade clareou o modo de pensar das três amigas auxiliando-as nos problemas do dia a dia.

Carlos por sua vez, sentia-se mais calmo. O fato de o filho ter procurado por ele fez-lhe bem. Ainda não tinha esquecido de todo o episódio do torneio porém sua raiva já tinha passado. Mesmo porque saber que Dinho seguiria seus passos o enchia de orgulho. O velho orgulho. De repente sua satisfação sofreu uma interferência sombria. E se Dinho viesse a se tornar um militar medíocre? Tal pensamento irritou Carlos que resolveu não pensar mais em Dinho, pelo menos por algum tempo.

O namoro de Fernando e Clara ia cada vez melhor, pelo menos para eles dois pois Helena se tornava a cada dia um pouco mais arredia.

Otávio, pai de Carlos, que sofria a alguns anos de uma doença hepática, teve seu quadro de saúde agravado. A idade pesava-lhe e os órgãos de seu corpo estavam seriamente comprometidos. Foi internado na CTI de um hospital confiável, apesar dos esforços médicos, Otávio não resistiu e fez a passagem. Neste momento, Dona Violandi que se encontrava a seu lado, orou fervorosamente pelo companheiro que estava deixando a vida corpórea, auxiliando muito assim o desenlace tranqüilo de Otávio que imediatamente foi recebido pela espiritualidade e conduzido, ainda dormindo, a uma das Moradas de nosso Pai tranqüilamente, sem sobressaltos nem apegos. Graças às preces da esposa que se tornara uma trabalhadora aplicada e disciplinada. Os ensinamentos espíritas haviam modificado Dona Violandi de tal forma que, muitos irmãos a procuravam a fim de obter dela esclarecimentos e auxílio.

A morte de Otávio, como não podia deixar de ser, abalou a família. Todos se sentiam deprimidos e tristes. Dona Violandi consolava todos tentando explicar-lhes que a vida continua além da morte do corpo.
Carlos estranhava a conversa da mãe. Não conseguia entendê-la. Chegou a pensar, por um instante que, sua mãe,  estava satisfeita com a morte de Otávio.
O funeral foi simples. Os amigos da casa espírita onde Dona Violandi trabalhava fizeram-se presentes e a corrente de paz se fez. Os ânimos foram apaziguados e tudo correu tranqüilamente. Otávio, em poucos dias, acordaria e então se recordaria de que a vida corpórea é passageira.

Carlos estava muito abatido. A mãe, percebendo o abatimento do filho, convidou-o a passar uns dias com ela. Carlos aceitou de pronto e na companhia da mãe encontrou um pouco de paz e serenidade.
Dona Violandi, aproveitando a presença do filho em casa, contou-lhe sobre seu trabalho e aprendizado no centro espírita. Carlos reagiu sem muito interesse,  pensou que seria bom que a mãe se ocupasse de alguma coisa, mesmo que fosse com a religião.
Otávio, depois de algum tempo, pois o tempo espiritual é difícil de precisar conforme o nosso, acordou e foi amparado por amigos caros. Parentes e outros trabalhadores da espiritualidade ajudaram-no a compreender tudo quanto se passava. Otávio rapidamente ajustou-se a sua vida real e pode verificar com clareza todos os pontos de sua vida terrena.
Em pouco tempo, teria permissão para dar uma mensagem a Dona Violandi, fato que encheu seu coração de alegria, pois agora sim ele entendia o trabalho da esposa, bem como o trabalho da espiritualidade.



- ESCLARECIMENTOS-



Tanto a família de Helena, quanto a de Carlos, descendia de italianos que imigraram para a América do Norte. Inicialmente instalaram-se na cidade de Altoona, Pensilvânia, onde Helena e Carlos se conheceram e onde Fernando nasceu.
Fernando nasceu em 1947. Passados alguns anos, Carlos foi transferido para Nova York. Na ocasião, Dona Violandi e Otávio também seguiram para lá pois seria mais fácil morar perto do filho. Os pais de Helena continuaram em Altoona, bem como seus dois irmãos. Ao contrário dos pais de Carlos, os pais de Helena eram briguentos e “um tanto ignorantes”. Seus irmãos bebiam muito, desgovernavam-se a maior parte do tempo envolvidos em brigas de rua. Por este motivo, Helena preferia ter pouco contato com sua família. Ao mudar-se para N.York, este contato diminuiu ainda mais, chegando mesmo a um certo afastamento. Helena era tida pela família como orgulhosa e arrogante, principalmente seus irmãos pensavam assim. Os pais de Helena estiveram uma única vez em N.York, por ocasião do nascimento de Fernando, depois disso, nunca mais. Helena fazia-lhes, de tempos em tempos, uma visita. Levava Fernando consigo.
Quando se mudaram para N.York, deixaram em Altoona sua casa que com o passar do tempo, transformaram em casa de campo.
Carlos era temido pela família de Helena pois era muito áspero no trato com os mesmos e o fato de ser militar, os intimidava.
O tempo passou. O divórcio de Helena e Carlos enfim foi sacramentado.
Só então, é que Helena esteve na casa dos pais e contou-lhes sobre a separação. Riram-se todos como se a situação fosse algo que eles merecessem. Como se, vê-los, de alguma forma por baixo, fosse bom.
Helena sabia que nunca poderia contar com sua família. Aproveitou a visita e procedeu a venda da casa de campo. Ela e Carlos dividiriam a renda depois que a venda fosse efetuada.

Carlos continuou ainda com sua mãe. Decidiu mudar-se depois da venda da casa de Altoona assim poderia adquirir um imóvel pequeno para si. Fernando e Helena continuariam na casa de N.York.
A cada dia, Fernando ia melhor nos estudos e nos treinos. Via pouco o pai mas mantinha com ele uma certa amizade.

Com o passar do tempo, Carlos começou a ter um sonho insistente, ou seja, todas as noites sonhava a mesma coisa.No sonho, Carlos gritava muito com alguém que não conseguia ver o rosto, depois, ouvia o disparo de um tiro. Logo a seguir, ouvia o som de muitos tiros. Acordava sobressaltado, ofegante. Demorava muito a dormir de volta. Carlos não comentou o sonho com ninguém afinal, para ele, sonho era sonho. Mas, este sonho,  começava a incomodar devido a sua insistente repetição.Ainda assim, Carlos manteve-se em silêncio.Atribuiu enfim à insistência do sonho, o fato de os EUA estarem na guerra do Vietnã.Como oficial do exército, poderia ser convocado à partir a qualquer momento.Sua convocação poderia dar-se da noite para o dia.

Helena e Fernando só iam bem quando o nome de Clara não vinha à tona. A implicância de Helena, com o passar do tempo, havia aumentado. Fernando não dava motivos para que a mãe se queixasse dele. Pelo contrário, ia muito bem nos estudos e já sonhava com a carreira militar muito embora seu país estivesse passando por um momento bastante delicado. O envolvimento na guerra do Vietnã.


Clara preocupava-se bastante com Fernando, amava o namorado e agradecia a Deus todos os dias pelo fato de Fernando ainda não pertencer às Forças Armadas. Acreditava que quando Fernando ingressasse na carreira militar, os EUA já estariam vivendo uma situação de paz. Temia somente pelo pai de Fernando, orava por ele. Clara era católica, gostava de ir a igreja aos domingos e tinha o hábito de orar todos os dias.Pedia a Deus que Helena a aceitasse. Não conseguia entender porque a mãe de seu namorado não a suportava. Clara jamais havia feito nada a Helena, pelo contrário, sempre a tratara com respeito e educação.



- A COMUNICAÇÃO DE OTÁVIO -

Otávio seguia feliz, auxiliado por amigos, começou a entender melhor sobre como ajudar os outros do lado de lá. Começou a trabalhar, sentia-se leve e tranqüilo. As vezes, sentia saudades de D.Violandi porém sabia que mais dia menos dia, iriam se reencontrar pois eram almas gêmeas. Desde muito estavam juntos. Encarnaram muitas vezes juntos. Trabalharam algumas vezes na espiritualidade em prol do próximo antes de encarnarem. Devido à iluminação de seu espírito, Otávio recebeu autorização para comunicar-se com a esposa e para auxiliá-la nos trabalhos tanto terrenos quanto espirituais. Otávio era só alegria e contentamento. Concentrava-se sempre no Mestre Jesus para agradecer-lhe a graça e  em Deus por ser o Pai Supremo da vida. Em meio a tanta alegria, o espírito de Otávio foi advertido quanto à real situação de sua família. Otávio sentiu então que o trabalho que enfrentaria junto à esposa  seria árduo.
Chegado o dia marcado para a comunicação de Otávio, Dona Violandi chegou cedo ao centro, concentrando-se no trabalho como nunca e sem saber ou supor que naquele dia, teria notícias de seu amado. A espiritualidade não a avisou nem permitiu que ela supusesse. Assim, observando a alta concentração da médium, puderam detectar que a médium era bastante iluminada pois, sentira, mesmo sem influênciação, que aquele era um dia especial.
Iniciados os trabalhos daquele dia, Dona Violandi, de pronto, sentiu uma onda de alegria a invadir-lhe a mente e o corpo. Foi então que, uma colega de trabalho, através da psicografia, recebeu a mensagem de Otávio que dizia assim:

─ Olá minha menina. Voce tinha razão. Há vida aqui onde estou. Pobre corpo o nosso. Jamais conhecera a paz que o espírito traz. Há vida em Deus e em Jesus, suas Leis são imutáveis. Continue firme em sua fé. O trabalho não cessa, nem mesmo aqui. Voce sabe. Sei que sabe. Tenho a alegria de comunicar-lhe que, estou autorizado a trabalhar a seu lado de agora em diante. Querida, prepare-se, teremos trabalho bastante doloroso a enfrentar. Por ora é tudo. Agradeçamos ao Pai e a Jesus pela oportunidade e aos amigos caridosos daqui por tamanha alegria. Saudades.

Dona Violandi não cabia em si de alegria. Guardou com especial carinho a folha de papel que trouxe até ela, uma mensagem de alguém tão querido e amado. Ao mesmo tempo, sentiu uma ponta de preocupação. O que será que Otávio quis dizer com trabalho doloroso?
 Pensou muito e não chegou à conclusão alguma. Afastou  a preocupação, visto que, Otávio disse que trabalhariam juntos. Isso a enchia de confiança e tranquilidade.
Laura e Aurora, ao lerem a mensagem de Otávio, emocionaram-se muito e tiveram suas crenças reforçadas, somente Otávio poderia chamar de minha menina, à Dona Violandi.

As notícias da guerra corriam soltas e a população começou a temer seriamente pela vida de seus jovens.
Esta era uma guerra, como todas, estúpida. O povo se perguntava até mesmo: Onde fica o Vietnã?



-  A TRAMA DE HELENA -



A venda da casa de campo do casal enfim efetuara-se. Dividiram a renda e Carlos conseguiu comprar um pequeno apartamento próximo à casa da mãe.
Helena, por sua vez, tendo algum dinheiro a mais nas mãos, pensou:

 “Convidarei Fernando para uma viagem! Tem que ser um tanto quanto longa. Assim, terei tempo para pensar em algo que o separe de Clara”.

Pensando assim, Helena começou a arquitetar um plano. Durante a viagem, teria que fazer com que Fernando se interessasse por outra garota. Tiraria fotos comprometedoras e as faria chegar, sem querer, às vistas de Clara. È. Poderia dar certo.

Helena delirava em sua intransigência e ciúme. Enfim, fez o convite ao filho que ficou de pensar sobre o assunto.

No mesmo dia, Fernando comentou com Clara sobre a proposta da mãe.
Clara mostrou-se compreensiva dizendo:

─ Fernando, talvez esta viagem seja mesmo boa para voces e para nós. Quem sabe, em um ambiente mais relaxado, D.Helena não consiga refletir melhor e aceitar nosso namoro?. Deduziu ingênua.

Fernando, encorajado por Clara, resolveu aceitar a proposta da mãe. Teria apenas que ajustar os dias porque, não poderia comprometer seus estudos nem tão pouco seus treinos de tiro ao alvo. Ajustes feitos, marcaram a viagem que duraria 15 dias. Foram para a Flórida.
A cabeça de Helena não parava de rodar. Desde o momento que pisaram na Flórida. Helena não parava de pensar em como faria para encontrar uma garota, atraente o bastante, para aproximar de Fernando.
Fernando sentia a mãe nervosa e ansiosa, tal comportamento, era-lhe, nos últimos tempos, comum. Naquela noite, durante o jantar, Helena procurava com o olhar, por garotas belas. Chegou a apontar duas para Fernando que, desinteressado, continuava a comer. Helena então resolveu deixar a busca para o dia seguinte. Teria que ter calma para alcançar seu objetivo.
Nossa pobre Helena não sabia que seu comportamento atraia para ela, companhias ávidas por desajustes.Prontas à influenciar, da pior maneira possível, seus pensamentos e ações.
A manhã  raiou, durante o café, Helena e Fernando podiam observar da janela as belezas do lugar. Helena mostrou-se bastante animada e terminado seu café, foi pedir informações sobre eventuais passeios que poderia fazer com o filho. Os guias turísticos de plantão traçaram um roteiro para Helena com sugestões bastante interessantes. De posse do roteiro, Helena juntou-se a Fernando e discutiram então, por onde começariam naquele dia seus passeios. Nesse ínterim, chegou ao hotel, um grupo de moças. Agitadas, falavam todas ao mesmo tempo, riam, brincavam, coisas que todos os jovens gostam de fazer. É claro que estas moças chamaram a atenção de Fernando, assim como a de todos que pelo saguão estavam. Helena, ao perceber o interesse do filho, começou então a sentir-se vitoriosa. Teria de achar um meio de fazer com que Fernando se introsasse com aquele grupo. Pediu licença a Fernando, rapidamente, para ir ao toilette. Vira que algumas das moças haviam se dirigido para lá. Helena começaria a por em prática seu plano.


Ao entrar no toalete, lá estavam três das moças de um grupo de mais ou menos dez. Helena cumprimentou-as e puxou assunto. As moças mostraram-se bastante atenciosas. Helena conseguiu saber para onde elas iriam naquele dia. Sugeriria o mesmo passeio a Fernando. Despediu-se das moças e andando depressa, sentou-se ao lado de Fernando, tomou-lhe o roteiro das mãos e disse:

─ Meu filho, ouvi as moças comentarem que esta praia aqui, veja, este trecho do roteiro é fantástico. Vamos também?

Diante do ânimo da mãe, Fernando só teve de concordar. Foram-se, depois de ajeitados os apetrechos de praia.
Uma vez lá, Helena não conseguiu avistar de imediato o grupo de moças. Procurava com o olhar. Fernando estranhou e perguntou:

─ Procura alguma coisa mãe?

─ Ah, sim meu filho, procuro por um bom lugar onde possamos nos instalar.

Nesse caso, vamos caminhar um pouco.

─ Certo. Concordou Helena, procurando por todos os lados pelas moças. Sendo que não as avistou, resolveu parar e aproveitar a praia.

Helena e Fernando sentaram-se em confortáveis espreguiçadeiras a beira mar. O lugar era realmente belo e as pessoas ao redor divertiam-se muito.
Fernando pensava em Clara quando, de repente, Helena soltou um: Veja!Exclamativo   e sonoro.
─ Olhe o que mãe?

─ Aquelas garotas do hotel. Estão vindo ai.

─ Ah, sim. Exclamou sem entusiasmo Fernando.

Ao se aproximarem mais um pouco, Helena levantou-se rapidamente e começou a acenar para as três que havia conhecido no toalete do hotel. Muito educadas, as garotas responderam ao aceno e aproximaram-se de Fernando e Helena.

A conversa foi informal. Apresentações, comentários, perguntas até que as garotas despediram-se e seguiram caminho. Helena estava excitadíssima. Foi logo perguntando a Fernando o que achou das moças. Fernando respondeu, normalmente, mostrando indiferença, que achava bom um grupo de garotas assim reunido passeando. Helena, mesmo diante da indiferença do filho, não desistiria.
O dia foi bom, praia, passeio no final da tarde, mãe e filho recolheram-se ao hotel. Lá chegando, a primeira coisa que Fernando fez foi dar um telefonema para Clara. Fato que, é claro, irritou profundamente Helena:

─ Dinho, cuidado com os telefonemas. Interurbanos são caros. Temos que economizar de alguma forma.

Fernando ignorou completamente o comentário de Helena e foi tomar um banho. Enquanto isso, nossa pobre Helena, planejava e sonhava em destruir aquele namoro.


Desceram para o jantar e, lá estava novamente o grupo de moças. Helena aproximou-se delas perguntando se já haviam jantado. Como a resposta foi negativa, prontamente convidou-as à sua mesa. Algumas aceitaram, outras alegaram outros compromissos e saíram. A alegria de Helena era visível. Fernando, com muita educação, recebeu as moças de bom grado e começou a conversar. Helena irradiava felicidade conquistando assim, a simpatia de todas. Fernando achou bom que a mãe estivesse se divertindo, afinal, era esse o intuito. Pelo menos para ele. A conversa foi agradável e prosseguiu até o café. Algumas das moças pediram licença para se recolherem. Duas ficaram com Helena e Fernando. Como a cabeça de Helena estava má intencionada, pediu licença para ir até a varanda. Carregava sempre consigo a máquina fotográfica. À uma distância segura dos jovens, fotografou-os sem ser vista. Seu plano começava a encaminhar-se bem. Aproximou-se novamente do pequeno grupo, deu boa noite e recolheu-se, deixando Fernando com as moças de muito bom grado. Chegando em seu quarto, quase pulou de alegria. Seu plano teria que dar certo.
O dia seguinte veio novamente cheio, desta vez, Helena não conseguiu saber o paradeiro das moças. Teria mesmo era que contar com a sorte. Fernando aproveitava ao máximo o passeio, jogava bola, nadava enfim, usúfruia de tudo de bom, como um menino.
Passaram-se os dias e tudo o que Helena conseguira, era uma foto, feita a distância e de má qualidade. Começava então a preocupar-se, o dia da partida chegaria muito breve. Aconteceu daí, que o acaso colaborou com o plano sórdido de Helena. Era fim de tarde e Helena estava no quarto preparando-se para o jantar. Quando desceu, sempre armada da câmara fotográfica, flagrou Fernando e uma das moças, chamada Nôemia, conversando animadamente na varanda. Chegou o mais perto que pode, de forma tal, que sua presença não pudesse ser notada pelo pretenso casal. Armou a câmara e conseguiu uma foto realmente comprometedora. Muitas vezes o que vemos, não corresponde à real situação do momento, principalmente em fotos mas, para os planos de Helena, a foto seria perfeita. Num dado momento, Nôemia deixou cair o lenço de cabelo que segurava nas mãos e, ela e Fernando, ao mesmo tempo, abaixaram-se para apanhá-lo, conclusão: Nôemia e Fernando ficaram face a face, sorrindo um para o outro e, Helena por infelicidade, registrou este exato momento. Pronto. Era tudo o que ela queria se bem que, o que ela realmente queria era que Fernando se apaixonasse por outra esquecendo Clara. Percebeu que o tempo era curto demais para tal façanha e contentou-se com as fotos. Foto feita aproximou-se do casal que a recebeu com alegria. O agravante foi uma mensagem, de amizade, que Nôemia escreveu para Fernando, pois havia simpatizado muito com o rapaz. A mensagem dizia o seguinte:
Fernando,
Amigo, te conheço há tão pouco e já te admiro muito. Foi muito bom conhecer voce. Espero que voce consiga êxito em tudo quanto desejar e espero vê-lo novamente. Até mais,
Nôemia.
Junto à mensagem, estavam anotados endereço e telefone de Nôemia. Helena sentiu que a sorte estava com ela. Isto era mais do que ela pudesse imaginar ou querer.
O fim das curtas férias finalmente chegou.  Fernando e Helena deixaram a bela Flórida rumo à suas rotinas assim como Nôemia e seu grupo.

Como não podia deixar de ser, a primeira coisa que Fernando fez ao chegar, foi ir até a casa de Clara, cheio de saudades, encontrou a namorada também saudosa. Conversaram muito, namoraram bastante enquanto Helena maquinava seu plano.
No dia seguinte,  Helena correu ao estúdio fotográfico a fim de revelar aquilo que era para ela, o final do romance descabido de seu filho. As fotos demoraram alguns dias a ficarem prontas. Ao final destes dias, Helena teve em suas mãos, o produto de seu plano maquiavélico.


Durante os dias em que as fotos estavam sendo reveladas, Helena, sorrateiramente, havia procurado e encontrado nos guardados de Fernando, o bilhete de Nôemia. Estava tudo pronto para que ela desse seguimento ao plano. As fotos saíram como ela queria. Tudo perfeito mas e, como mostrar a Clara? Desistiu do anonimato, somente ela e Fernando estavam na viagem. Seria incoerente o anonimato. Foi então que pensou: Que tal um almoço no domingo? Sabia que o filho estranharia muito o convite, arriscou. Afinal a viagem fizera-lhe bem. Ela estava bem menos implicante. Convidando Clara para o almoço, daria a impressão de ter melhorado. De afinal começar à aceitar o namoro do filho. Sim era isso que faria e, no meio do almoço assim, como quem nada quer, se lembraria de ter revelado as fotos e deixaria cair, sem querer, o bilhete de Nôemia. Sim, faria exatamente isso.
Naquele dia, uma sexta-feira, Helena esperou por Fernando com ansiedade. Durante o jantar, Helena finalmente lançou sua flecha. Fernando reagiu com alegria:

─ Que bom mãe, finalmente está aceitando Clara. Mãe, estou muito feliz!. Vou falar com ela agora mesmo. Ela virá sim mãe. Voce vair ver. Ela virá.!

Pobre Fernando, nenhuma armadilha da vida, poderia ser-lhe pior.

Cheio de entusiasmo e alegria, comunicou à namorada, o convite da mãe. Clara aceitou prontamente de muito boa vontade e começou a pensar no que vestir para encontrar a futura sogra em um almoço dominical.
Clara escolheu sua melhor roupa e seguiu feliz, com Fernando, o caminho de sua casa.
“Chegaram afinal”. Exclamou Helena. Clara sentia-se pouco a vontade e Fernando, muito feliz com a presença da namorada em sua casa, mostrava-lhe cada canto.Helena, em seu íntimo, se roia de raiva e ciúme mas, mostrava o seu melhor lado falso. Enganando até mesmo seu filho que não cabia em si de alegria.
O almoço foi servido, veio a sobremesa e na hora do café, Helena, no auge de sua interpretação, lembrou-se das fotos da viagem que, esquecera até mesmo de mostrar a Dinho. Clara, muito solícita e alegre quis ver as fotos com muito boa vontade. Era o trunfo de Helena. Era agora ou nunca.
Helena tratou de selecionar as fotos de tal forma que, aquelas que lhe interessavam, viriam por último junto com o bilhete que, sem querer cairia do meio do álbum.
Plano perfeito. As últimas fotos fizeram corar o rosto de Clara e o bilhete, que, propositalmente, caiu a seus pés, sem que pudesse deixar de ser lido, tiraram a cor e o humor da bem intencionada jovem. Fernando não sabia o que dizer. Não conhecia as fotos que, secretamente, Helena fizera. Desconcertado, perguntou a Helena, que fotos eram aquelas, não se lembrava delas. Diante de tal pergunta, Helena desconversou, dirigiu para outro assunto, astutamente, a conversa e saiu da sala como alguém que acabara de lançar uma bomba e não queria se ferir.
Fernando tentou falar com Clara, explicar a situação mas, o transtorno da namorada era tamanho que, Fernando nada conseguiu a não ser levá-la de volta à sua casa.
Chegando em casa, Fernando foi direto falar com Helena que, deitada, fingia uma dor de cabeça terrível.
Nosso pobre rapaz recolheu-se, triste e amargurado, aos seus aposentos passando a noite em claro enquanto ao lado, sua mãe dormia feliz e satisfeita.


Manhã seguinte, Helena teria de se explicar  mas, explicar o que? O material que tinha  era apenas registro da realidade. Clara era a errada, a incompreensiva, a ciumenta.
Firmando-se nestes argumentos, Helena desceu altiva as escadas para o café da manhã. Não encontrou o filho que saíra muito cedo para o colégio. Perguntou por Fernando à empregada que respondeu que Fernando havia apenas provado um pouco de café preto e saído muito abatido. Helena sentiu-se satisfeita. Ao que tudo indicava, seu plano tinha dado certo. Fernando estava triste agora, logo, logo esqueceria tudo e voltaria a dar atenção apenas a ela.

Helena sem se dar conta, estava ficando seriamente doente. Vivia todas as horas de seu dia pensando apenas em separar Dinho e Clara. Não pensava nem se dedicava a mais nada. Formava-se aí, um quadro obsessivo que Helena alimentava todos os dias sem  nem mesmo imaginar.

Aquele estava sendo um dia penoso para Fernando que mal conseguia concentrar-se nos estudos, assim sendo, decidiu que não treinaria tiro ao alvo neste dia. Precisava conversar com alguém. Logo veio-lhe em mente a avó, Dona Violandi, que não via já há algum tempo. Telefonou e marcou uma visita para uma hora depois. Chegando na casa dos avós, lembrou-se com carinho do avô já falecido. Sentiu saudades. Aurora veio imediatamente ao seu encontro. Abraçou aquele que considerava como seu próprio neto com muito amor. O calor fraterno de Aurora e de Dona Violandi, confortou Fernando, que de imediato, já se sentia melhor.

─ Então meu filho, que bom que veio.

─ Estou feliz por ter vindo também vovó. Não venho com maior frequência por causa da escola. A senhora sabe, não é?

─ Sim, sei sim.Sei também que tem ido bem nos estudos. Isto é muito bom, fico muito contente.

Fernando sentia-se tímido para iniciar a conversa que queria ter com a avó, quando Dona Violandi, percebendo certa ansiedade no neto, perguntou:
─ Tem algo a me dizer meu filho?

─ Por que pergunta vovó?

─ Estou sentindo uma ponta de ansiedade em voce.

─ É, gostaria de conversar um pouco com a senhora sobre a Clara. A senhora sabe que tenho uma namorada não é?

─ Sei sim. Mas, o que houve?

─ Entre nós, exatamente, não houve nada. A senhora sabe que eu e mamãe estivemos viajando, não sabe?

─ Não, nem sua mãe, nem seu pai me disseram nada.



─ Acho que meu pai também não sabe. Bem, a história é a seguinte: após a venda da casa de campo, minha mãe convidou-me para uma viagem, já que dispunha de algum dinheiro. Aceitei após falar com Clara que me apoiou e achou até bom que eu viajasse com a mamãe. Pensou que durante a viagem, a mamãe poderia esquecer um pouco a implicância que tem com o nosso namoro se eu conversasse mais com ela sobre o assunto, de uma maneira mais tranquíla. Muito bem, fomos viajar, a viagem foi boa só que, todas as vezes que eu tentava falar com a mamãe sobre a Clara, ela cortava o assunto. Quando eu fazia meus telefonemas para Clara, ela imediatamente reclamava dizendo que telefonemas interurbanos eram caros. Foi difícil. Durante a viagem, conhecemos um grupo de moças muito simpáticas e fizemos amizade. Foi só amizade mesmo vovó, nada aconteceu , mesmo porque, não me interesso por outra, a não ser por Clara. Fizemos algumas fotos com essas moças, aliás, fizemos muitas fotos, em lugares diferentes. Só que tem uma coisa estranha com essas fotos. Algumas foram feitas sem que eu percebesse e, tem uma vovó, que realmente, foi uma obra de arte. No grupo de moças, havia uma chamada Nôemia que ficou muito minha amiga. Certa tarde, eu conversava com Nôemia na varanda do hotel, quando ela deixou, sem querer, cair seu lenço de cabelo. Eu e ela nos abaixamos ao mesmo tempo para apanhar o lenço caído, esta fração de segundo foi registrada em foto de tal forma que, parece que eu e Nôemia havíamos acabado de nos beijar e estivéssemos sorrindo um para o outro, satisfeitos. Entende “ vó”? O pior é que Nôemia, no dia de nossa partida, escreveu um bilhete para mim. O bilhete é de pura amizade mas, depois daquela foto, tudo ficou difícil. Mamãe revelou as fotos e diz ela, ter esquecido de mostrá-las a mim em primeira mão.O mais estranho dessa história toda foi o convite que mamãe fez a Clara para almoçar conosco no domingo, ontem mais precisamente. De uma hora para outra, resolveu convidar Clara para almoçar e depois do almoço, mostrou as fotos que nem mesmo eu tinha visto. Vovó, eu estava tão contente com a presença de Clara em minha casa!. A senhora nem imagina e, de repente, minha mãe com suas fotos e aquele maldito bilhete, estragaram tudo. Clara nem mesmo quis ouvir o que eu tinha a dizer. A esta altura, não sei nem mesmo o que deve estar pensando. Infelizmente vovó, só posso concluir que minha mãe fez tudo de propósito. Até mesmo a viagem. Isto está me deixando louco. Estou com muita raiva de minha mãe. Se pudesse, eu nem voltaria para casa hoje.

D.Violandi ouviu com paciência o desabafo do neto. Enquanto ele falava, ela mantinha-se em oração, a fim de aliviar, pelo menos um pouco, o coração aflito de seu neto. Vieram-lhe à mente, as palavras de Otávio. Começou então, a vislumbrar um problema. Helena não estava bem. Seu comportamento não era normal. Precisaria de algum tempo para poder entender o que realmente se passava com a ex nora. No momento, precisava ajudar o neto.

─ Dinho meu querido. Sei que o comportamento de Helena é estranho, existem mães que, por medo de perderem seus filhos, comportam-se de uma maneira pouco comum. Talvez o fato de voce ter começado a namorar cedo, tenha avivado este medo dentro dela. Pense bem meu filho. Não tenha raiva de sua mãe. A raiva é um sentimento destrutivo que, mais cedo ou mais tarde, afeta à quem o sente. Tente, por um momento, colocar-se no lugar dela. Separou-se de seu pai. A família mora distante e, mesmo se estivessem por perto, voce sabe, eles são complicados. Ela se sente muito só e vê em voce, seu único apoio.

─ Já pensei em tudo isso vó mas, é muito difícil viver assim. Tenho a minha vida e Clara faz parte dela. Minha mãe tem de entender que não vou viver colado a ela.

─ Tranqüilize seu coração. Vou ter uma conversa com Helena. Quanto à Clara, converse com ela meu filho. Conte tudo. Ela vai entender. Será triste confirmar a desaprovação de Helena , Clara há de ficar a seu lado.

─ Obrigado vovó. Foi muito bom falar com a senhora. Trarei Clara um dia desses para conhecê-la. Isto é, se ela ainda me quiser.

─ Vai querer sim meu filho. Ela conhece Helena. Entenderá que voce está inocente nesta história.

Fernando saiu da casa da avó bastante aliviado. Foi para casa. Quando entrou, encontrou Helena na sala.

─ Tudo bem Dinho? Vamos jantar?

─ Não tenho fome. Vou tomar um banho e me deitar. Boa noite.

Helena sentiu-se péssima diante da indiferença  do filho. Teria preferido brigar a ter de suportar tamanho desprezo. Começava a pagar o preço de sua intolerância.



O abatimento tomara conta de Clara. Não conseguia parar de pensar naquelas fotos e naquele bilhete. Por que Fernando fizera isto com ela? Pensava. Sua mãe, percebendo a tristeza da filha, quis saber o que havia acontecido.

─ Clara,está acontecendo alguma coisa errada? Perguntou a mãe em tom de preocupação.

─ Está sim mãe mas não é nada grave.

─ Não quer conversar? Talvez eu possa ajudá-la de alguma forma.

─ Não sei mãe. Deixe-me pensar um pouco, depois, outra hora conversaremos.

Na verdade, Clara não gostaria que seus pais soubessem que Helena era contra o seu namoro com Fernando. Não queria magoar os pais. Tinha esperança de poder entender-se com Helena com o passar do tempo. Percebia agora que esta esperança era bastante infundada. Sentiu claramente, a satisfação de Helena diante de seu  dissabor. Deixou-se levar pela armadilha de Helena, sem prestar atenção em Fernando que, assim como ela, estava “sem jeito”.

Fernando sentia uma tristeza profunda. Já não se sentia culpado pela separação dos pais. Aos poucos, percebeu que um longe do outro, eram pessoas melhores. Sabia que, se o pai estivesse ainda em casa, a situação que Helena criara com Clara não seria diferente. Poderia ser até pior. Mesmo depois de procurar o pai, Fernando ainda sentia que existia uma distância grande entre eles. Nunca conseguiram realmente o entendimento pleno. Fernando sentia-se triste por tudo. Principalmente por sua mãe não aceitar Clara. Mas, o que magoou fundo mesmo, foi o fato de Helena ter tramado toda aquela estória de viagem, fotos, etc. A decepção com  a mãe foi enorme. Ele sentia um vazio assustador dentro de seu peito jovem. O encontro com a avó, fora a única coisa boa que, nos últimos dias, tinha lhe acontecido. Procurava pensar nela quando se sentia mal. Conseguia assim, sentir que alguém ainda o amava verdadeiramente, nestes momentos, podia sentir mais conforto.

Carlos continuava com seus insistentes sonhos. O apartamento que comprou servia-lhe  na justa medida. Estava perto da mãe e do trabalho.



- O VIETNÃ -

A guerra do Vietnã seguia seu curso sem trégua, fato que preocupava e ao mesmo tempo, excitava muito a Carlos. Como as coisas lá pelo Vietnã não iam bem, sua convocação era certa. Se esta guerra não terminasse em breves dias, Carlos seguiria, com toda a certeza, para lá.
Os EUA envolveram-se na guerra do Vietnã por razões puramente políticas. Na verdade, o intuito era o não avanço do comunismo na Ásia. No começo, os EUA mandaram para o Vietnã, alguns assessores militares para treinamento de tropas. Com o passar do tempo, esses assessores tornaram-se comandantes de regimentos, no caso, regimentos do sul do Vietnã,  a briga era justamente entre o Vietnã do sul e o do norte. O norte querendo impor o comunismo e o sul, defendendo o regime republicano.
Em 1961, o recém eleito Presidente J.Kennedy, ordenou o envio, ao Vietnã, de um grande número de militares. Assim como o envio de uma quantidade bastante significativa de armamentos.
Esta guerra absurda, tomou proporções assustadoras. O sofrimento era grande e conhecido, a televisão levava aos lares americanos, todos os dias, os horrores desta guerra brutal.
Os bombardeios químicos, efetuados pelos EUA, destruíam as florestas locais, as plantações e seres humanos inocentes com seu nefasto poder.


Pois bem, como não poderia deixar de ser, todo o contingente militar americano estava em alerta. Pronto para partir a qualquer momento, a prontidão incluía Carlos.
Devido à delicadeza do momento, Carlos tratou de falar com a mãe e de lavrar em cartório, algumas considerações que tinha por justas. Ou seja, o destino de alguns bens que lhe restavam. Guerra era guerra. Tomou precauções justamente por não saber o que poderia lhe acontecer.

Dona Violandi, tomada de surpresa, com o rumo dos acontecimentos, orava noite e dia. Pedia ajuda à espiritualidade. Intuia que somente a prece, naquele momento, auxiliaria a todos.
As vezes, racionalmente, não compreendemos o real sentido da guerra. O que nos chega de forma cruel é, em muitos dos casos, justamente o reajuste, a purificação. A tempestade, para que se faça a bonança.
Nada pode justificar a crueldade, nosso entendimento quanto à estas questões ainda é bastante limitado.
De muita valia é a prece, mesmo que, vista dentro do imediatismo, nos pareça inócua. A fé verdadeira não tem prazo. Não se abate, apenas confia nos desígnios do alto.
A população americana temia e não compreendia ao certo o que estava acontecendo. Era tudo muito rápido e a razão de ser não era clara para as pessoas.



- UMA VITÓRIA -

Fernando tornara-se finalmente um campeão de tiro ao alvo. A competição realizou-se sem o conhecimento de Carlos, aliás, sem o conhecimento de ninguém que lhe fosse próximo. Só depois de ganha a competição, é que Fernando informou ao pai e à família.
Finalmente, por uma vez na vida, Carlos orgulhou-se do filho. A notícia de sua vitória correu os quartéis locais e Carlos foi cumprimentado por todos os amigos, inclusive por Evaristo que for a supostamente responsável pela última derrota de Fernando.
A vitória da competição, fez com que Fernando se sentisse muito bem, recompensado por seu esforço, mas, nenhum campeonato traria ao jovem maior alegria do que ter de volta o amor de Clara.
Helena sentia-se orgulhosa do filho. Agora ele era um campeão e Carlos perceberia que a educação que ela estava dando ao filho, ia por um bom caminho. Ninguém poderia dizer que ela não era capaz. Até mesmo Clara, que era um estorvo, ela conseguiu afastar de Dinho. Só o que a pobre Helena não estava conseguindo, era reconquistar a confiança de Dinho que, após o episódio das fotos, tratava-a com indiferença e frieza. Quanto à isso, Helena apostava no tempo. Mais dia menos dia ele esqueceria, pensava ela, porém , no fundo de sua alma, Helena sentia-se completamente só. Seu desequilíbrio emocional era evidente. O processo obsessivo que ela passou a desenvolver, aos poucos ia tomando conta de sua mente.
Dona Violandi soube da vitória do neto na competição por ele próprio. Era bom ter a avó para dividir as alegrias e as tristezas. Durante a conversa, Fernando comunicou à avó que sua mãe não ia nada bem. Estava muito estranha ultimamente. Relatou que não mais conseguia relacionar-se com ela com antigamente.



Dona  Violandi intuiu a gravidade da situação e iniciou um trabalho de preces na intenção de Helena. Passados alguns dias, recebeu a segunda comunicação de Otávio. Referia-se novamente à família. Advertia que Helena necessitava de auxílio urgente e que Carlos e Dinho corriam perigo. Diante dos fatos, Dona Violandi resolveu visitar a ex nora. Surpresa, Helena não sabia o que fazer, nem mesmo como se comportar. Dona Violandi, imediatamente percebeu o estado psíquico de Helena e preocupou-se seriamente. Pediu orientação a seus mentores e teve a seguinte resposta:

“A jornada terrestre é dura. Para reajustar, entramos nela e só teremos êxito se, despojados de todo o mau sentimento, nos resignamos e trilhamos o caminho da luz”.

A mensagem era um tanto quanto vaga, mas, repleta de verdade, quando analisada.



- UMA  NOVA  CHANCE -

Clara soube que Fernando agora era um campeão.
Um misto de orgulho e de preocupação invadiram seu ser. Sentia saudades de Fernando, o dito orgulho, não a liberava para procurá-lo. Foi quando, em uma tarde ensolarada e quente, Fernando, muito tímido e sem jeito, resolveu telefonar e tentar conversar. Ao atender ao telefone, Clara sentiu toda a emoção de ouvir novamente a voz de alguém tão querido e emocionou-se. Fernando  sentiu alegria e viu surgir novamente uma chance. Clara havia concordado em encontrar-se com ele no dia seguinte.
Obviamente, Fernando guardou para si  a alegria de tornar a ver Clara. Passou a noite em claro, louco para que o dia raiasse e ele pudesse encontrar-se com Clara. Aconteceu o mesmo com ela. Contava os minutos que a separavam de Fernando. Então, fez-se o dia, as horas passaram e o momento se aproximava. Tanto Clara quanto Fernando, mal cabiam em si de tanta alegria. O encontro havia sido marcado próximo à casa de Clara, numa praça. A ansiedade fez com que Fernando chegasse ao encontro meia hora mais cedo. O que, com certeza, aumentou sua impaciência. Exatamente na hora marcada, Clara chegou e, ao ver o amado, correu ao seu encontro. Abraçou-o entre lágrimas. O abraço era forte, sincero e saudoso. Sentaram-se, conversaram. Falaram sobre tudo o que havia ocorrido. Lamentaram  o estado de Helena.
Fernando, no final da conversa, convidou Clara para a casa da avó. Garantiu-lhe que conhecê-la, seria uma surpresa agradabilíssima, pediu que a namorada confiasse nele. Clara concordou. Despediram-se mais apaixonados que nunca e Clara, no caminho de volta para casa, agradecia a Deus por nunca ter comentado nada com os pais sobre o desequilíbrio de Helena. Assim, tudo seria mais fácil.



- O DESCONTROLE DE HELENA -

Fernando chegou em casa irradiando alegria. Helena percebeu. E como que, querendo aproveitar-se da situação, tratou de achegar-se alegre também porém, a frieza do filho para com ela, continuava ali, era a mesma. A raiva tomou conta de Helena que, numa explosão de fúria, começou à atirar todos os objetos que estavam ao seu alcance, na direção de Fernando.
Fernando defendia-se como podia. A mãe atirava objetos e falava sem parar. Parecia enlouquecida. Fernando teve medo, correu para o seu quarto e concluiu que deveria telefonar para a avó.
Dona Violandi atendeu ao telefone e, diante dos acontecimentos, pediu ajuda à Laura e à Aurora que, prontamente ofereceram-se para acompanhá-la até a casa de Fernando.
Helena caminhava de um lado para outro pela casa, falando, ameaçando, quebrando objetos e reclamando a presença de Fernando que, amedrontado, só conseguia permanecer trancado em seu quarto. Sabia que a avó e suas amigas estavam à caminho.
Durante o trajeto, Dona Violandi e suas amigas, permaneciam em prece.


Chegaram, finalmente. Tocaram a campainha. Ninguém respondeu. Da janela de seu quarto, Fernando pôde avistar a avó e suas companheiras. De lá do alto, chamou por elas e foi ouvido. Pediu que esperassem, pois desceria e as fariam entrar. 
Helena, ao ouvir o toque da campainha, olhou pela janela e reconheceu a ex sogra. Imediatamente, jogou-se, na primeira cadeira que viu e começou a chorar compulsivamente como que tivesse sido vítima de alguma tragédia.
Fernando abriu a porta para a avó que entrou com suas companheiras. Inteirou-as do caso e as três, passaram à trabalhar. Encontraram Helena em prantos na sala de jantar. Sentada numa cadeira, apoiando os braços sobre a mesa, Helena chorava compulsivamente.
As médiuns analisaram a situação, pediram auxílio e o obtiveram. Puseram-se imediatamente em profunda concentração, criando assim, um ambiente contrário à energia que emanava de Helena. Esta, por sua vez, percebendo que seu teatro não funcionaria, procurou, desesperadamente, uma saída. Levantou-se, encarou a todos e dirigiu-se à cozinha. Fernando seguiu-a enquanto as médiuns mantinham-se concentradas. Sem que Fernando percebesse, numa fração de segundo, Helena alcançou uma faca e cortou um de seus pulsos que, de pronto, começou a jorrar muito sangue. Apavorado, gritou por ajuda. Helena caiu por terra sem sentidos. Imediatamente Dona Violandi e suas amigas acudiram. O pronto socorro foi chamado e a situação de Helena foi  avaliada.
Ficaria em observação por alguns dias. Seriam feitos testes psicológicos bem como psiquiátricos.
Dona Violandi, neste instante, passou a compreender as mensagens do esposo falecido mais detalhadamente.

Carlos foi avisado e sem demora, estava lá, ao lado do filho e da mãe.

Helena foi medicada, assistida. Os testes psicológicos e psiquiátricos aos quais foi submetida, nada acusaram. Medicamente, Helena foi liberada. A única recomendação que os médicos fizeram a Fernando foi que Helena evitasse, por algum tempo, situações estressantes.
Diante dos fatos, a família não sabia como agir.
Helena voltou para casa com Fernando. Em seu íntimo sentia que havia tocado o filho. Cria que, de agora em diante, Fernando dedicaria-se mais a ela. Certamente que sim, pois tendo alguém debaixo de seu teto que, de um momento para o outro pode, num ataque de fúria, atentar contra a sua própria vida, a pobre pessoa só consegue visualizar o cuidado. Ou melhor, o medo de tornar-se responsável pela morte de alguém.

O jogo de Helena era um sucesso. Sentia-se enfim, realizada. Fernando de agora em diante, seria só e exclusivamente dela. Era tudo o que ela queria.

Carlos diante da situação sentia-se perdido. Lamentava profundamente o comportamento da companheira de tantos anos. Sentia pelo filho que teria de enfrentar tudo isso, mas, bem no fundo de sua alma, sentia-se vitorioso, pois, não se sentia responsável pelo desequilíbrio de Helena. Mais uma vez, em seu íntimo, responsabilizou Fernando pelo comportamento dela. Manteve a opinião para ele mesmo.



Clara soube do ocorrido e lamentou profundamente o fato. Mesmo porque tal acontecimento a manteria mais afastada de Fernando, visto que neste momento, ele deveria ocupar-se mais no trato com a mãe. Boa pessoa que era, compreendeu e até, mais uma vez, deu forças ao homem que amava ainda que anonimamente.

A presença de Dona Violandi e de suas colegas no momento em que Helena atentou contra a própria vida foi, sem dúvida, de muita valia. Não fossem as preces e os pedidos de auxílio, tudo poderia ter sido bem pior.
Dona Violandi entendeu então que a ex nora, não tendo nenhum problema clínico, estava espiritualmente muito doente. Empenharia-se em tentar ajudá-la, mas, precisaria também que ela quisesse ser ajudada.



- A CONVOCAÇÃO -

Em meio a todos estes problemas, a guerra do Vietnã corria solta e cada vez mais complicada.
Veio a convocação de Carlos. Estava na hora de por em prática os ensinamentos que recebera durante boa parte de sua vida.
A convocação não o pegou de surpresa, obviamente, estava preparado. Comunicou então à mãe e ao filho. Estes sim, embora soubessem que esta possibilidade era real, sentiram-se surpr esos e amedrontados.

─ Onde fica o Vietnã pai? Por que os soldados americanos têm de ir para lá?
 Perguntou Fernando que, devido aos problemas que nos últimos tempos teve de enfrentar, ficou meio a parte da situação do próprio país. Mesmo estudando em colégio  militar e preparando-se para o engajamento. Carlos respondeu um tanto irritado, pois, a alienação do filho quanto a este assunto era, para ele, absurda. Jornais, televisão, o próprio colégio, tudo informava sobre esta guerra.

─ Dinho, que mau lhe pergunte, ainda não prestou atenção sobre o que está acontecendo em nosso país?
─ Sabe pai, ando meio desligado mesmo. Esta história da mamãe realmente tirou-me a concentração.
─ Da mamãe e da Clara. Não é mesmo?
─ Sim pai, é.
─ Pois fique sabendo que seu ingresso na vida militar pode levá-lo até o Vietnã também. Já pensou nisso?
─ É claro que não. Faltam ainda alguns anos para os meus testes de admissão.
─ Voce não pensou que alguns anos é o tempo que essa guerra pode durar?
─ Não, realmente não. Penso que tudo se resolverá brevemente. Temos o melhor armamento do mundo, os melhores soldados, tanto do exército quanto da marinha e nossa força aérea é bastante forte.
─ Pois bem Dinho, voce está subestimando o poderio do inimigo. Não acha que está?
─ Tenho de informar-me melhor sobre tudo isso. Voce tem razão.
─ Bem quanto à sua pergunta inicial, vou responder: O Vietnã fica próximo à China.

Carlos pôs Fernando a par de tudo quanto estava acontecendo no momento na guerra do Vietnã. Explicou-lhe também de que forma os EUA envolveram-se.

Em poucos dias Carlos partiria para uma terra distante. Com ele, muitos companheiros.
Dona Violandi sentiu muito ao saber que seu filho teria de enfrentar uma guerra. Os familiares dos militares, apesar de saberem qual é a finalidade da profissão, quase nunca param para pensar que, de uma hora para a outra, a guerra pode acontecer e que seus entes queridos, nestas horas, devem partir, pois estão comprometidos com a defesa da pátria.


O grupo de militares ao qual Carlos pertencia, deixaria os EUA no ano de 1962, rumo ao distante Vietnã. A excitação e o medo eram sentimentos comuns entre os soldados. O que a guerra lhes reservava, só saberiam quando lá estivessem.
Carlos partia com uma forte preocupação: O destino de Helena. Diante disto, sentia-se totalmente impotente, mas confiava que Dona Violandi saberia cuidar dela, caso houvesse necessidade.
 Dois dias antes de partir, Carlos foi ver Helena. As situações perigosas, fragilizam o ser humano e no caso de Carlos, isto não estava sendo muito diferente do esperado. Embora sua postura fosse bastante fria e firme, em seu íntimo, temia por sua vida e sorte.
Helena recebeu-o com espanto e surpresa. Já sabia de sua convocação, não esperava que Carlos fosse vê-la antes de partir. Mantiveram um diálogo quase que monossilábico. Sentiam-se estranhos. Fernando salvou a situação com sua chegada. Também para ele estava sendo uma grande surpresa ver o pai em casa. Raciocinou pouco depois e entendeu a visita do pai. Sentiu um frio estranho a percorrer-lhe o corpo diante dos pensamentos que lhe ocorreram. Sem nada demonstrar, conversou com o pai normalmente.
Na hora de despedir-se, Carlos sentiu no fundo do coração, um aperto forte. A emoção trancava-lhe a garganta de tal maneira que, suas últimas palavras custaram a sair. Nem mesmo ele esperava emocionar-se tanto. Disse:

─ Bem, tenho de ir agora. Obrigado por me receberem. Fiquem tranqüilos quanto à dinheiro. Suas pensões continuarão a serem pagas, como é devido. Se algo de ruim me acontecer, ainda assim voces terão amparo financeiro.

Neste momento os olhares de Helena e de Carlos quase se cruzaram novamente, Helena, rapidamente, desviou o olhar. Carlos sentiu necessidade de abraçá-la. Perguntou se podia e ela, devido à delicadeza do momento, consentiu. Carlos recebeu um abraço frio. Muito diferente do que esperava diferente do abraço que pretendia levar consigo para uma terra distante. Conformou-se e seguiu sem olhar para trás, muito embora tenha sentido uma enorme vontade.

Fernando ao ver o pai distanciando-se, lembrou do dia em que ele saiu de casa. Foi uma lembrança ruim, mas, a imagem que via agora era perturbadora. O que seria feito de seu pai? Perguntava-se ele. O frio tornou a invadir seu corpo e seus pensamentos ficaram confusos. Decidiu então ir ver Clara.

Clara recebeu-o como sempre com alegria. Fernando contou sobre o pai. Clara estremeceu e empalideceu imediatamente.

─ Meu Deus! - Exclamou. - Tentando refazer-se do susto, Clara ficou totalmente embaraçada. Não sabia o que dizer ao namorado que estava ali, na sua frente, passando por um momento tão difícil.
─ Clara. Meu pai é militar. Eu também serei. O fato de ele ir para a guerra não deveria causar tanto espanto em nós e nem tanto medo.

─ É Fernando, sei disso, mas, é uma hora bastante delicada. Não sei o que dizer para confortá-lo.

─ Meu conforto é poder ficar um pouco ao seu lado.



Dona Violandi tinha o coração apertado. A ida do filho para a guerra, o desequilíbrio de Helena e a possibilidade de o neto também partir para o Vietnã, exigiam de Dona Violandi, uma força muito grande, uma fé incondicional. Um trabalho árduo. Conforme Otávio, seu esposo desencarnado, havia-lhe prevenido.

Nada, do que fosse para ser, deixaria de acontecer, porém, Dona Violandi sabia que poderia contribuir para que o desenrolar dos fatos se desse de uma forma mais amena. Pelo menos no que lhe fosse autorizado interferir.

Carlos partiu. Não quis a presença de ninguém na despedida. Temia ver ruir por terra, a sua frieza e altivez. Também não queria partir levando na lembrança, rostos amedrontados e angustiados. Partia para cumprir o seu dever. Dever esse que, fazia parte de seu ofício tão orgulhosamente escolhido. Suas insígnias de oficial, brilhavam com a luz do sol enquanto sua mente, esforçava-se por manter-se no controle da situação.Corria o olhar pelos companheiros e via, em cada rosto, a incerteza, o medo, a falsa animação.

Helena deixava transparecer a pouca importância que dava ao ex marido. Depois do encontro com Carlos, ignorou totalmente a gravidade dos acontecimentos. Era como se nada estivesse acontecendo. Fernando sentia-se assustado com esta reação da mãe. Mal a reconhecia, tamanha era a mudança que sua maneira de ser havia sofrido. A mulher que aprendeu a admirar, independentemente de ser sua mãe, há tempos havia desaparecido, dando lugar à uma pessoa amarga, fria e falsa. Em certos momentos, Fernando sentia-se absolutamente só. Seu conforto e apoio vinham de Clara e da avó.

Após a partida de Carlos, Dona Violandi decidiu tomar providências mais sérias quanto à Helena. Conversou com pessoas, colegas de fé e com outras, profissionais da área da saúde e concluiu que, deveria ajudar Helena a recuperar o equilíbrio o quanto antes.

Soube então de uma clínica que praticava medicina alternativa. Muitos dos médicos que lá trabalhavam, eram espíritas. Assim sendo, considerou ser aquela clínica, o melhor lugar para tratar Helena.

Dona Violandi deveria primeiro convencer a ex nora que ela precisava de ajuda e tratamento. Imaginava que esta tarefa não seria fácil. Armou-se de toda a sua fé e boa vontade e foi ver Helena.
Helena recebeu a ex sogra com indiferença perguntando-se: “O que será que ela queria agora”?

Dona Violandi notou a frieza de Helena, mas não se importou. Seu propósito era muito maior do que uma simples indisposição e iniciou uma conversa sem muitas pretensões. Helena foi relaxando e dando espaço para que ela chegasse ao assunto tratamento. De pronto assustou-se e reagiu negativamente, como já era esperado.

─ O que é que a senhora quer dizer com tratamento? Estou bem, melhorei muito. Tenho me cuidado com os médicos daquele hospital no qual fiquei internada. Está tudo certo comigo. Não se preocupe.
─ Preocupo-me sim. Por gostar muito de voce minha filha é que estou fazendo esta sugestão. A clínica da qual estou falando, trabalha com métodos diferentes, com medicação natural e relaxamento além de ensinar um pouco sobre os problemas de nossas almas. Para tanto, ministram palestras muito interessantes e esclarecedoras.

─ A senhora está falando de espiritismo não é mesmo?

─ É e não é ao mesmo tempo. Muitos dos médicos da clínica são espíritas mas não todos. Sei que não se interessa pela minha fé, nem eu quero impor-lhe nada. Estou pura e simplesmente querendo ajudá-la, vê-la bem.



Para abreviar a conversa, Helena, já irritada, mudou de assunto, passou a falar sobre Carlos. Ambas lamentaram sua partida e, nesse instante, Helena estremeceu como que tomada por um frio estranho e intenso ao que Dona Violandi perguntou:

─ O que foi Helena? Voce empalideceu.

─ É que me ocorreu um pensamento terrível. Dinho. Faltam apenas três anos para que ele ingresse na carreira militar. E se essa guerra durar até lá? Meu menino terá de ir?

Dona Violandi, pega de surpresa pela suspeita de Helena, pensou  e sentiu que esse não era o momento adequado para pensarem nisso porém, essa possibilidade também assustou-a muito. Rapidamente retomou o controle da situação:

─ Helena, não podemos pensar nisso agora, seria um sofrimento antecipado e inadequado. Sua mente precisa descansar. Voce precisa de paz, não pense nisso. Até lá voce verá, tudo voltará ao normal.

O estado emocional de Helena que já não andava bem, diante do pavor de ver seu filho indo para uma guerra, tenderia a agravar-se ainda mais, por essa razão, Dona Violandi insistiu com Helena para que ela procurasse a clínica. Ofereceu-se até a ir com ela. Helena ficou de pensar no assunto.
Dona Violandi sabia que neste momento, a interferência do neto junto à mãe, seria de grande auxílio. Falou com Fernando que concordou plenamente com a avó. Faria de tudo para que a mãe procurasse a clínica. Sentiu uma nova esperança no ar. A atenção e o carinho da avó, nos últimos tempos, faziam com que Fernando tivesse confiança e equilíbrio. Graças a ela, encontrava forças para suportar todos os problemas que vinha enfrentando.



- O VIETNÃ E CARLOS -

Vietnã, terra de camponeses, cultivadores de arroz. Terra de um povo muito pobre e sofrido. Abalado por guerras anteriores à esta que teve os EUA como aliado do sul. O sofrimento era um velho conhecido dos vietnamitas. Desta vez, o conflito era interno, norte contra sul. Comunismo contra república.
Esta terra, totalmente estranha para Carlos, seria seu lar por um bom espaço de tempo. Prática da teoria. Tudo muda nesta hora. As situações são inesperadas e por mais que um soldado julgue saber, depara-se com o fator surpresa a cada dia , a bem da verdade, tudo é novo e esta é uma situação que no fundo, não é desejada por ninguém. Salvo os que se colocam seguros e apenas dão ordens.
Ao pisar a terra do Vietnã, Carlos olhou a sua volta. Era assustador. Sentiu medo talvez pela primeira vez em sua vida. Teria de recompor-se. Estava ali para trabalhar pela pátria. Faria o seu papel. Seria forte. Instalou-se no alojamento da base militar para receber instruções precisas dos que já estavam lá há algum tempo. Era necessário que se conhecesse a região, seu povo e o inimigo.

Os sonhos que tanto intrigavam Carlos cessaram dias antes de sua convocação. Pensou então que, como sua convocação finalmente havia chegado sua mente já não precisava mais preocupar-se com isto. Resolveu dessa maneira a questão e sentia-se aliviado com a ausência do sonho. Só que, o sonho, deixaria de ser sonho e se tornaria realidade. Uma realidade ainda mais dura. O sonho daria lugar ao pesadelo no estado de vigília. Nisso ele ainda não tinha pensado, mas, pensaria.

Da espiritualidade, Otávio, seu pai, trabalhava, sabia que muito não podia fazer pois, os carmas individuais jamais podem sofrer alterações. São escolhas pessoais inerentes ao espírito. Em prol de sua própria evolução.



Comunicava-se com Dona Violandi sempre a alertando quanto à delicadeza do momento, sempre pedindo preces, fé e força acima de tudo pois, os que vêem o turbilhão passar, necessitam de proteção e de forças para recomeçar. Muitas vezes, é a única coisa que se pode fazer. Ainda que muitos não consigam compreender.

Carlos foi, depois de devidamente orientado, para o campo de batalha encarar frente a frente um inimigo imposto. A maioria de seus companheiros eram velhos conhecidos. Alguns amigos. Encararam, no primeiro dia de confronto, um inimigo astuto e poderoso, pois, contavam com um trunfo que os americanos não possuíam. O hábito da guerra e o conhecimento milimétrico da região. Eram seres inteligentes e sabiam defender-se muito bem. Eram fortes e resistentes. Tinham menos a perder. Temiam menos. Contavam com sua astúcia para vencer o poderio bélico americano. O resultado disso seria uma guerra longa, apesar de os EUA contarem com forças infinitamente superiores no tocante à tecnologia, os vietnamitas contavam com eles mesmos. Esta confiança foi sua mais letal arma contra os soldados americanos.

Carlos começou então a ver as primeiras mortes de muitas que ainda veria. Sentiu-se mal. Um companheiro de muitos anos foi atingido bem do seu lado. O ferimento era tão sério que, qualquer um que visse, saberia que nada mais poderia ser feito. Carlos sofreu seu primeiro abalo emocional. Desejou, do fundo de seu coração, ir embora dali. Sabia que a estas alturas dos acontecimentos, não poderia sair. Passou noites em claro, dias que pareciam intermináveis. Começou então, como os demais, à usar drogas. Este era o único meio que os soldados encontraram para suportar as dores, físicas e morais às quais estavam sendo submetidos. O cenário era de puro horror. Num determinado momento, Carlos lembrou-se de seu sonho que tanto o perseguiu. Realizou então que, preferiria passar a vida inteira sonhando a estar ali.

Em tempos de paz e bonança, nem sempre o ser humano percebe o quanto é feliz.
Carlos conseguiu, através de uma carta, sua primeira comunicação com a família. Tentou ao máximo escrever sem emoção, sem detalhes do que realmente estava vivendo. Pretendia tranqüilizá-los de alguma forma. Já a televisão mostrava o contrário, ou melhor, passou a transmitir a real situação dos soldados.

A carta de Carlos até que tranqüilizou um pouco a família. Esperavam com toda a fé que Carlos retornasse. Só o que não se pensa é que, nunca mais, depois de passar por uma situação dessas, a pessoa será a mesma. As seqüelas são profundas.



- MÁRIO -

Fernando insistia com a mãe para que ela fosse pelo menos conhecer a clínica indicada pela avó. Percebendo que este assunto a aproximava do filho, Helena cedeu e pediu a ele que fosse junto com ela. Seria uma boa oportunidade de reaproximação. Pensou. Prontamente Fernando respondeu que iria com a mãe e que esta decisão o deixava muito contente. Ao que Helena tremeu de alegria,  começava a sentir que o filho ainda a queria muito bem. Fernando informou a avó sobre seu sucesso com Helena. Dona Violandi sentiu-se muito aliviada e agradecida ao alto por essa benção.



Logo no dia seguinte à decisão de Helena, ela e o filho dirigiram-se para a clínica. Fernando tinha pressa,  não pretendia que a mãe mudasse de idéia. Chegaram. O lugar impressionou-os pela beleza e simplicidade, também pela limpeza. As pessoas sorriam e eram amáveis. Havia muito verde e uma música ambiente suave. Procuraram então pela pessoa que Dona Violandi havia indicado. Mário apareceria para recebê-los, enquanto esperavam, sentiam o aconchego e a paz do lugar. Ambos sentiram-se muito bem ali. O médico demorava sempre alguns minutos para atender as pessoas que vinham até a clínica pela primeira vez de próposito. Queria que elas sentissem o ambiente e a energia positiva que dele emanava. A primeira conversa, depois desses minutos de reflexão, sempre era mais fácil por mais difícil que fosse o caso. Mário desceu então as escadas que davam no saguão onde Fernando e Helena estavam aguardando. Usava uma roupa impecavelmente branca. Era um homem de meia idade, médico psíquiatra, espírita desde o fim da faculdade quando teve a oportunidade de conhecer e estudar a doutrina. Mário era muito aplicado em tudo quanto fazia. Interessava-se com amor por todos os seus pacientes. Cuidava deles com o carinho de um irmão. Dona Violandi teve chance de conversar com ele antes que Helena fosse até lá, portanto, já estava a par do caso dela.
Mesmo que ela não soubesse. Ao vê-la, Mário soube imediatamente que já a conhecia. Sentiu algo especial por ela. Estudioso que era da doutrina, investigaria, ou pelo menos tentaria, se possível fosse, saber qual era a sua ligação com Helena , o que sentiu era forte o bastante para que fosse investigado.
Mário apresentou-se causando ótima impressão em Fernando. Conversaram um pouco os três e Mário perguntou a Helena se ela tinha interesse em tratar-se na clínica após dar algumas explicações sobre o funcionamento e o método da mesma. Helena respondeu sorrindo e afirmativamente. Fernando sentiu como se um peso enorme lhe saísse dos ombros. Há muito não se sentia tão leve e esperançoso. Mário marcou o ínicio do tratamento de Helena para a semana seguinte. Despediram-se e no caminho de volta para casa, Helena já podia sentir os efeitos benéficos da presença daquele médico tão atraente e atencioso. Pensou nele o caminho todo, sem falar. Fernando estranhou que Helena não estivesse falando,  sempre falava bastante. Resolveu não perguntar nada por medo que ela dissesse algo negativo quanto à clínica.
Fernando logo que chegou em casa, telefonou para a avó contando-lhe como tudo tinha sido. Dona Violandi sentiu-se muito feliz e disse a Fernando que escreveria para Carlos, contando-lhe esta boa nova. Ao que Fernando respondeu:

─ Ótima idéia “vó”, diga na carta, que eu o quero bem e que espero que ele volte logo e bem.
─ Sim meu filho, pode deixar, escreverei sua mensagem. Isto o fará feliz.

No distante Vietnã, Carlos recebeu, depois de muitos dias passados, a carta da mãe.
Nunca pensou que poderia emocionar-se tanto diante de um pedaço de papel. Leu a carta sozinho, escondido em um dos becos que por ali existiam.
Chorou como nunca havia chorado na vida. Guardou o pedaço de papel cuidadosamente dentro de sua roupa. Pensou em todos e em tudo. Percebeu finalmente, em meio àquele ambiente tão hostil, o quanto perdera em ter sido, ele próprio, por toda a vida, tão duro e tão intolerante. Como o era a situação em que ele se encontrava naquele momento. Abandonou rapidamente seus pensamentos, pois aquele não era o lugar ideal para lamentações nem para arrependimentos. Teria que deixar para depois. Agora, a realidade o chamava e a realidade era dura, teria de pensar apenas em sobreviver.

Fernando sentia-se muito animado com o início do tratamento da mãe. Já havia comunicado o fato a Clara que sentiu uma ponta de esperança ao saber que talvez um dia, com a melhora de Helena, elas pudessem se entender.



Mário começou o trabalho com Helena devagar, teria de, aos poucos, saber mais sobre ela. Tanto física quanto espiritualmente. Para tanto contava com o auxílio sempre presente de seus mentores espirituais.

Helena sentia-se melhor, mais calma, o início do tratamento já lhe fazia bem e a presença de Mário encantava-a. Era um sentimento estranho esse que ela passou a desenvolver por Mário em tão pouco tempo, aliás, desde o primeiro momento em que o vira, já sentiu algo de inexplicavelmente bom por ele.

Helena acreditava que Fernando tivesse rompido com Clara depois do ocorrido no almoço em que ela mostrara as fotos e o bilhete que, maliciosamente, havia conseguido. Nada sabia sobre a reconciliação do filho com a namorada. Estava tranqüila quanto à isto. Pensava que o filho estivesse apenas dedicando-se aos estudos.

Certa tarde resolveu dar um passeio sozinha, o tratamento que iniciara já permitia este desejo. Decidiu ir até a casa de chá fazer um bom lanche. Mal abriu a porta do estabelecimento e deparou-se com Dinho que conversava animadamente com Clara e com uma senhora que ela não conhecia que, de imediato supôs que fosse a mãe de Clara, dada a sua aparência e semelhança com a moça. Sentiu o sangue a ferver-lhe nas veias, começou a suar frio e a sentir as extremidades dos dedos geladas. Conhecia o sintoma, mas não podia controlá-lo. Sem que fosse vista, saiu correndo dali, pálida e muito nervosa. Sentou-se num banco de praça e começou a remoer os sentimentos. Odiava Clara. Ela atrapalharia a vida do seu único filho. Pensava ela. Ao mesmo tempo sentia-se enganada pelos dois que fingiram romper o namoro e continuavam a encontrar-se às escondidas. A raiva crescia, seus pensamentos entraram em pura desordem atraindo assim, espíritos menos esclarecidos que inspiravam sentimentos de vingança em Helena que se deixava levar e conduzir muito facilmente. Começou a imaginar o que poderia, anonimamente é claro, fazer desta vez. Teria de acalmar-se, ir para casa e lá pensar em alguma coisa que fosse realmente definitiva. Por enquanto, ela fingiria nada saber sobre Dinho e Clara. Tentaria agir normalmente embora isto muito lhe custasse,  sua vontade era de explodir de raiva.

- UM PLANO CRUEL -

Infelizmente, desta vez, inspirada por entidades obssessoras e pela sua total falta de controle e vigilância sobre si mesma, Helena pensou no pior, o que para esta pobre mulher, viria a parecer o melhor, a solução definitiva do seu problema. Matar Clara. Mas como?
 Pensava ela.



Pensou então na casa de chá e em como poderia envenenar a moça.

Tratou de informar-se sobre venenos que fossem potentes e em como faria para que Clara o ingerisse sem que ela estivesse envolvida na trama.
Desta vez seu plano era muito mais audacioso e sério. Ela necessitava de um cúmplice, lembrou-se de seus irmãos que, por dinheiro, faziam qualquer coisa, eram  pessoas um tanto quanto levianas.
Sabia que não contava com a simpatia deles, faria a coisa de tal forma que, seria impossível que eles recusassem.
 Ofereceria uma boa soma em dinheiro.
 Diria que se tratava de um caso na família de uma amiga dela e que o veneno não era potente, seria apenas um susto, mas, na realidade, a coisa não seria bem assim.
O dinheiro que ofereceria teria de comprar o silêncio deles.
Diria que sua amiga não queria falar com eles, preferia permanecer no total anonimato.
Teria de explicar aos irmãos também, como ela havia pensado neles para a execução deste crime.
Diria que a amiga a procurou muito nervosa,  a moça em questão, no caso Clara, lhe havia tomado o marido e agora ela queria vingar-se da moça dando-lhe um susto e colocando-a temporariamente for a de ação pois, uma vez ingerido o veneno, teria de se recuperar no hospital por alguns dias.
Nesse ínterim, a amiga tentaria a reconciliação com o marido.
 Pronto, eis ai o plano de Helena.
Quanto a como ela havia pensado neles diria que, a amiga a procurou contando tudo isso e elas pensaram por muito tempo sem chegar a conclusão nenhuma até que ela, Helena, pensou que talvez os irmãos estivessem precisando de dinheiro e não se importariam em dar apenas um susto em alguém.
Tudo  planejado.
 Começaria a por em prática seu plano no dia seguinte.
Aproximava-se a hora de Fernando voltar para casa. Helena, fingindo indisposição, trancou-se em seu quarto e pediu para não ser incomodada. Era importante que ela digerisse mais um pouco a sua ira, para tanto, seria melhor não ver o filho naquela noite.

Na manhã seguinte, vestiu sua melhor máscara de atriz e tomou café com o filho animadamente. Não via a hora de Fernando sair para poder começar a por em prática seu plano vil.

Dona Violandi e Aurora “tocavam” a vida normalmente.
Depois da morte de Otávio, fizeram-se ainda mais amigas e companheiras. Temiam muito por Carlos, oravam por ele todos os dias enviando-lhe boas vibrações que muito o ajudaram, mesmo sem que ele soubesse. Pediam também que Otávio olhasse por ele, se tivesse permissão. Foi em meio a essas preces que mais uma vez Otávio pôde comunicar-se com Dona Violandi. Pedia à mulher que tivesse muito cuidado com Helena e que não se preocupasse tanto com Carlos que, apesar de estar em meio a uma guerra, não estava tão mal assim. As vibrações estavam chegando até ele, inspiravam-lhe uma conduta razoável e aguçavam seus sentidos permitindo assim, que ele se livrasse de algumas situações de alto risco. Pediu para que ela e Aurora continuassem vibrando por ele, sem se preocuparem muito.
Encerrou a comunicação com grande emoção e carinho, espalhando entre os presentes, vibrações de pura paz e bem estar.
A comunicação com Otávio enchia o peito de Dona Violandi de alegria e confiança, porém, a advertência quanto à Helena, preocupava-a muito. Telefonou então para Mário, a fim de saber notícias sobre o tratamento da ex nora. Mário tranqüilizou dizendo que ela estava indo bem. D.Violandi relatou a Mário a comunicação de Otávio. Diante disso, Mário resolveu dedicar-se mais ao caso no que se referia à parte espiritual. Garantiu a  ela que se empenharia em  ajudá-la.

É muito difícil saber o quanto podemos evitar o mal.

 Às vezes, as pessoas têm, por si mesmas, de discernir quanto a seus atos e pensamentos, muitas vezes não nos é permitido interferir, por mais boa vontade e fé que tenhamos, nos “carmas” adquiridos pelas pessoas que amamos.
Outras vezes, nos é permitido intervenção, não para mudar o que é imutável e sim para suavizar os efeitos. Em outros casos, dependendo do grau de comprometimento da pessoa e do quanto de elevação o nosso espírito já alcançou, podemos até, conseguir a graça de livrar alguém que nos é querido de algum mal, mas, este é um caso de merecimento, tanto de quem pede como de quem recebe. Portanto, embora às vezes nossas preces e pedidos  nos pareçam inócuos, na verdade, nunca o são. Sempre vão ajudar de alguma forma mesmo que não consigamos distinguir o seu efeito.



Depois da saída de Fernando pela manhã, Helena telefonou para a casa dos pais, o que causou espanto em sua mãe que atendeu ao telefone. Depois de uma conversa rápida, perguntou pelos irmãos. Mais espanto e estranheza por parte da mãe. Enfim respondeu que estavam dormindo e que, se houvesse mesmo interesse em falar com eles, que tornasse a ligar dali a uma hora. Helena concordou e ficou de ligar mais tarde. Ao desligar o telefone, a mãe de Helena estava verdadeiramente pasma. Pensava:
“O que será que ela quer”?. Bom, parece que boa coisa não é.
Estava certa.
A hora se passou, a ansiedade de Helena só crescia, sua sede de vingança só aumentava. De repente, o telefone de Helena tocou, ela apressou-se em atender pensando que fosse um dos seus irmãos. Não era. Era Mário que, preocupado com a paciente, queria notícias. Ela conversou com Mário muito rapidamente, pois precisava falar com os irmãos antes que eles saíssem. Mário sentiu a tensão em sua voz e preocupou-se seriamente.
Após desligar o telefone, Helena, imediatamente ligou de volta para a casa da mãe. Seu irmão mais velho atendeu. Helena, meio sem jeito, pediu ao irmão que se encontrasse com ela, pois precisava falar-lhe com urgência. Willian, sem entender muito bem o que se passava, tentou saber da irmã qual era o problema. Por que depois de uma vida, Helena queria vê-lo agora e com urgência. Helena não deu muitas explicações e tocou no ponto fraco: dinheiro.
Willian limpou a garganta, pensou e concordou em ir até N. York ver a irmã. Iria com o outro irmão, já que Helena insistia e parecia muito determinada.
Willian e Bonny arrumaram suas mochilas e seguiram ao encontro da irmã estranhando muito seu pedido, como Helena tinha falado em dinheiro, resolveram conferir o assunto.
Helena foi ao encontro dos irmãos, não os queria em sua casa. Obviamente, seria perigoso. Instalaria os dois em algum hotelzinho que fosse barato.
O encontro com os irmãos deu-se de uma maneira bastante formal. Quiseram logo saber o que Helena tinha de tão urgente para pedir. Ela friamente disse-lhes que se acalmassem e confiassem nela pois era apenas um “ trabalhinho” especial que ela tinha para eles. Meio desconfiados, resolveram levar o assunto a termo, para ver onde é que iria dar.
Helena e seus irmãos enfim encontraram o tal hotel idealizado por Helena, ou seja, longe das imediações de sua casa e locais por ela freqüentados. Uma vez instalados, começou a conversa mostrando bastante ansiedade. Explicou a situação, por ela inventada, aos irmãos que, incrédulos, ouviam-na sem interromper. No final, pensativos e ainda bem desconfiados, perguntaram:
─ De quanto dinheiro estamos falando?

Quando Helena disse a quantia que seria dividida entre os dois, ambos mal puderam crer:
─ Tudo isso por um susto? Perguntou já muito desconfiado Willian.

─ Bem, foi esta a quantia que minha amiga dispôs-se a pagar. Disse Helena.

Os irmãos entreolharam-se, coçaram a cabeça, caminharam de um lado para outro dentro do pequeno quarto e enfim Willian disse:

─ Eu e Bonny temos que conversar a respeito. Falamos com voce a noite já com uma resposta.


Helena deu um salto da cadeira onde estava sentada e furiosamente, aos berros, disse:
─ Como é que é? Então tenho todo este trabalho de trazê-los até aqui, ofereço um bom dinheiro e voces me esnobam?

Bonny, percebendo a conjugação do verbo da irmã e seu total descontrole, disse:

─ Helena, é sua amiga mesmo que precisa do trabalho ou é voce? Pelo visto, para que fique assim tão brava, parece mais é coisa sua.

Helena enrubesceu de raiva, mas sabia que era necessário controlar-se, se quisesse mesmo levar para diante seu plano. Disse:
─ Desculpem, estou nervosa, nunca fiz estas coisas e agora, na intenção de ajudar uma amiga tão querida, me vejo nesta situação tão delicada. Tudo bem Willian, ligo para voces a noite, em hipótese alguma, liguem para a minha casa. O contato com voces terá sempre de partir de mim e se, por acaso, acharem que o dinheiro é pouco, falo mais uma vez com minha amiga e vejo o que posso arranjar.

Despediram-se de Helena e a sós, Willian e Bonny, começaram a pensar.

Era tudo muito estranho mas o dinheiro era bom. Decidiram não pedir mais, poderiam correr o risco de perder o negócio. Não confiaram na estória de Helena mas, o dinheiro era bom. O plano era confuso, Helena não inspirava confiança. Começaram então a pesar os prós e os contras do plano e decidiram arriscar. Planejaram a maneira deles, a melhor forma de executar o serviço e como seria a fuga do local. Tudo certo. Teriam apenas de aguardar o telefonema de Helena e suas instruções.
Helena estava muito agitada, teria de ligar para os irmãos sem que ninguém ouvisse. Como Dinho estava demorando a chegar, Helena, muito agitada e ansiosa, resolver ligar. Willian atendeu  ao telefone e disse que tudo bem, ele e Bonny aceitavam o serviço porém, modificariam o plano original de Helena pois o consideravam mais perigoso e difícil. Helena muito satisfeita disse que iria ao encontro deles no dia seguinte bem cedo. Encontro marcado, trato feito. Agora era só esperar e continuar com o plano.

Depois do trabalho na clínica, Mário, duas vezes por semana, participava dos trabalhos mediúnicos de um centro espírita muito antigo e bem estruturado. Era da doutrina espírita que Mário tirava a maior parte de suas forças para curar pessoas e para encaminhar outras, bem como para viver sua própria vida. Aquela era uma dessas noites, Mário iria para o centro em especial determinado a ajudar Helena. A paciente que tanto o intrigava e pela qual sentiu profunda simpatia. Com ela no pensamento, Mário chegou no centro. Dali a dez minutos os trabalhos teriam início.
Trabalho iniciado, Mário não conseguia tirar Helena do pensamento, dificultando assim sua concentração. Uma de suas colegas de trabalho sintonizou-se com Mário e com suas preocupações conseguindo assim o auxílio de um dos mentores de Mário que pôde pronunciar-se e que transmitiu a seguinte mensagem:

“Do passado são os problemas presentes. Sua tarefa amigo, não é nada fácil. Se assim o fosse, não exigiria dedicação e altruísmo. Atenção, há um perigo eminente. O que o preocupa, tem razão de ser. Seja perseverante e muito atento. Estaremos ao seu lado sempre. Temos autorização para ajudar neste caso,  trata-se de alguém iluminado.Não quem vem no seu pensamento mas, alguém a quem esta nossa irmã está tentando prejudicar. Repito caro, atenção e perseverança, é chegada a hora de sua grande prova.Dedique seu tempo, ainda que seja muito, a este caso. Esteja em paz, olhamos por você”.



Mário sentia ondas de frio e de calor a percorrer-lhe o corpo. Havia absorvido e entendido a mensagem e sentia-se profundamente grato. Assim como se sentem as pessoas que alcançam a graça das mensagens direcionadas. È algo de muito confortante e bom. Mário saiu do trabalho renovado e forte. Procuraria por Helena no dia seguinte sem falta.

Amanhecer do dia seguinte:

Helena despertou muito cedo. Ansiava por encontrar seus irmãos para poder enfim acabar com Clara. Tomou seu café com o filho que notou a animação da mãe. No primeiro instante, sentiu-se feliz, poucos segundos se passaram para que Fernando ficasse preocupado com aquela animação, pois este quadro já lhe era um velho conhecido. Perguntou então:

─ O que a anima tanto mãe?

─ Nada. Ou melhor, vou à clínica hoje. O Dr. Mário é muito atencioso e tem me ajudado muito. É isto. Por quê?

─ Não, não é nada. Apenas queria saber o motivo pelo qual voce hoje está tão bem.

─ Pois bem, já sabe.

Fernando não ficou satisfeito com a resposta da mãe mas nada podia fazer a não ser cuidar de sua vida. Terminou de arrumar-se e saiu.

Após a saída de Fernando, Helena tratou de arranjar tudo para poder sair logo também. E assim foi. Helena dirigiu-se ao hotel onde deixara, na noite anterior, seus irmãos.

Willian e Bonny esperavam por ela no quarto. Conversaram e explicaram as alterações planejadas. Helena concordou prontamente com o novo plano e entregou aos irmãos o veneno a ser utilizado. Ficou de pagá-los logo após à execução do plano mas, William exigiu a metade do dinheiro para aquele dia. Helena, pega de surpresa disse:

─ Muito bem, vou ao banco agora mesmo buscar o dinheiro.

Diante de tal atitude, ficou claro para os irmãos que o serviço era para ela mesma mas, tudo bem, o dinheiro era bom.

Helena foi até o banco, retirou a quantia desejada e a entregou a Willian que, diante de tanto dinheiro, exultou em contentamento.

─ Muito bem mana. Já vimos a foto da moça, já sabemos seu nome e por onde ela passa. Acontece que, precisamos da confirmação de que é a moça certa para podermos  agir.
─ Muito bem, vamos até perto da casa dela e eu mostro para voces.

O comprometimento de Helena, através de suas contradições simultâneas era claro e evidente. Só ela não percebia, já que estava cega pela vingança.
Helena e seus irmãos tomaram um táxi. Próximo da casa de Clara, Helena pediu para que o motorista parasse. Para disfarçar, fingiam procurar uma certa pessoa, em um certo endereço daquela rua. Os irmãos desceram do carro para fingirem melhor enquanto Helena, com os olhos colados na direção da casa de Clara, esperava que a moça aparecesse. Passou-se uma hora e nada de Clara, todos estavam muito impacientes. Quando já estavam quase desistindo, Clara apareceu no portão de sua casa. Parecia esperar por alguém. Imediatamente Helena sinalizou para os irmãos que viram bem a moça. Helena sinalizou novamente para que eles entrassem logo no carro. O medo de Helena era que Clara estivesse esperando por Fernando. Se seus irmãos vissem o sobrinho, seu plano iria ruir.



Pediram ao motorista que voltasse ao hotel. Desceram, repassaram o plano com Helena e ficaram de esperar por seu telefonema naquela mesma noite.

Willian e Bonny chegaram à conclusão que o serviço era mesmo para Helena. Estava muito claro para eles este fato. Desconfiaram muito do efeito do veneno que a irmã lhes entregara. Foram até uma farmácia para obterem informações sobre o tal veneno que, segundo Helena, era de efeito fraco. O farmacêutico de plantão, assim que pegou o frasco, disse:
Este é um veneno bastante potente. Geralmente é utilizado no sacrifício de animais. Por exemplo: Cavalos de corrida que sofrem ferimentos graves e ficam impossibilitados de andar. Estes animais têm de ser sacrificados,  se assim não fosse, o animal sofreria muito. Nestes casos este veneno é utilizado. Mata o animal em pouco tempo, causa asfixia irreversível.
Os irmãos agradeceram a explicação e saíram da farmácia boquiabertos, pensativos.

─ Mano, porque será que ela quer matar aquela moça?

─ Não faço a mínima idéia. É claro que a estória que nos contou é pura mentira. Ela quer nos transformar em assassinos. Isto nós não somos e nem seremos. Não é verdade?

─ Não, eu pelo menos não quero nem saber disso. Longe de mim!

─ Pois é. Ocorreu-me uma idéia para que não percamos o dinheiro. Já que a mana está nos enrolando, vamos enrolá-la também.

─ O que vamos fazer?

─ Olha...

Logo que Helena pôs os pés em casa, ouviu o toque insistente do telefone. Sua criada  não estava ouvindo pois trabalhava no quintal. Helena respondeu ao chamado. Era Mário.

─ Como está Helena? Precisamos nos ver para dar continuidade ao seu tratamento.

─ Ah!. Sim Dr.Mário, precisamos sim. Acontece que por estes dias tenho estado um pouco atarefada com a casa, o filho, o Sr. sabe como é, as vezes estas coisas acontecem.

─ Tudo bem Helena, por favor, chame-me voce. A palavra senhor é muito séria e afinal, além de seu médico, pretendo ser seu amigo. Pode ser?

─ Claro, é claro que pode. Voce sabe que simpatizo muito com voce, Mário.

─ Assim está melhor. Mas, diga-me, como está se sentindo? Tem tomado a medicação?

─ Estou ótima. Tenho tomado a medicação conforme sua orientação.

─ Está bem Helena. De qualquer forma, preciso vê-la, talvez tenhamos que fazer algumas modificações em seu tratamento.

─ Muito bem, posso falar com voce amanhã?

─ Sim, podemos nos falar amanhã.

─ Está bem então, até amanhã.

─ Até. Cuide-se Helena.

Helena sentiu-se muito bem ao desligar o telefone. Mário trazia-lhe uma calma boa de sentir. Imediatamente esqueceu Mário para concentrar-se em suas maldades.



Mário, por sua vez, sentiu que algo não ia bem com Helena. Sua intuição estava certa porém, nada podia fazer além do que já vinha fazendo. Resolveu ligar para Dona Violandi, explicou o que sentira ao falar com Helena e  ela resolveu tentar descobrir se havia algo de errado. Diante de tal ajuda, Mário sentiu-se melhor e pode continuar o seu dia um pouco  mais aliviado.
Dona Violandi pensou em telefonar para Helena mas, intuitivamente, achou melhor ir vê-la. Lá chegando, foi recebida com a habitual frieza. Fato que não abalava aquela senhora de tão boa índole. Conversaram. Dona Violandi não percebeu nada de errado, a não ser o fato de a ex nora estar bastante agitada naquele dia.

Ao chegar em casa, Dona Violandi telefonou para Mário, explicou tudo o que notara de estranho com Helena e ambos resolveram fazer uma corrente de preces, já que sentiam algo de muito incômodo no ar.

Willian e Bonny, num lampejo de luz, muito provavelmente emitido pelas preces de Dona Violandi e Mário e, pelo merecimento e luz da própria Clara, desistiram de dar o veneno à moça, até mesmo por que eram pessoas levianas, dadas às falcatruas, não aos assassinatos.

Puseram,  todo o plano combinado com Helena em prática a não ser pelo veneno que foi trocado por tranqüilizante forte, porém inofensivo.
Vestiram disfarces de vendedores de bombons e, assim que avistaram Clara saindo de casa, abordaram a moça insistindo para que ela comprasse um de seus bombons.

─ Moça, nossos bombons são de ótima qualidade. Nossas esposas são quem os prepara, ouça, temos crianças pequenas, precisamos sobreviver. Ouça, por favor, experimente um de graça, por nossa conta, vai ver como vai gostar e ficar freguesa.

Diante de tanta insistência e querendo livrar-se dos vendedores, Clara concordou em experimentar o tal bombom. Degustou rapidamente aquele que lhe for a oferecido e comprou mais um. Assim que puderam, os irmãos entraram num táxi e seguiram Clara, de longe, para ver o resultado. Puderam perceber que a moça sentou-se no primeiro banco de praça que avistou e que lá ficou dormindo um sono profundo. Tudo certo, agora era apressar o restante do dinheiro com Helena, antes que ela descobrisse que eles não a haviam obedecido a risca.

Assim que chegaram ao hotel, estava anoitecendo. Teriam de esperar o telefonema de Helena e teriam de achar uma maneira de receber o restante do dinheiro muito rápido, pois  o tranqüilizante era forte porém, poderia perder o efeito rapidamente.

Passada uma longa hora, Helena ligou:

─ E então?

─ Tudo certo mana, o serviço saiu conforme combinado. Queremos o restante do dinheiro agora.

Helena levou um susto, como faria para pagá-los àquela hora?

─ Ouçam, têm de esperar até amanhã para que eu possa entregar-lhes o restante.

─ Não, queremos agora. Nossas vidas estão em risco, podemos ser pegos pela polícia e, se isto acontecer, não tenha dúvida que contaremos tudo.

Helena sentiu todo o seu corpo esfriar, como se tivesse entrado numa câmara frigorífica. Não sabia o que fazer. Pediu então que os irmãos aguardassem um seu segundo telefonema, dali a pouco tempo. Concordaram e esperaram. Precisavam sair dali o quanto antes. Helena, desesperada, ligou para o gerente de sua agência bancária. Pegou o homem de surpresa. Inventou uma estória convincente qualquer e conseguiu, com o gerente, efetuar o saque de sua conta após o expediente bancário. O gerente estranhou muito a atitude da cliente, como se tratava de pessoa respeitável e cliente antiga, resolveu abrir uma exceção.


Já de posse do dinheiro, Helena foi ao encontro dos irmãos diretamente, sem antes telefonar, pois seu desespero era grande bem como sua ânsia pelo resultado. Encontrou os irmãos no hotel de malas prontas e passagens de volta para casa compradas.

─ E então? Como é que foi? Perguntou Helena.

─ Tudo bem. Tudo conforme combinado. Vimos a moça sentar-se num banco de praça e depois desmaiar. Diga à sua amiga que tudo saiu como ela queria. Agora por favor, dê-nos o dinheiro, precisamos sair daqui o quanto antes.
Helena sentia um misto de alívio e preocupação, pagou os irmãos e esperava sinceramente, não tornar a vê-los nunca mais.
Willian e Bonny, apressadamente, guardaram o dinheiro, despediram-se da irmã e dirigiram-se, o mais rápido que puderam, ao aeroporto. Não iriam para casa como disseram à Helena, fariam uma viagem de férias para gozar do dinheiro fácil e relativamente limpo.
Helena foi para casa sentindo-se vingada, certa que Clara desta vez, havia saído da vida do filho. Desde que os viu juntos, sua ira transformara-se em obsessão. Não suportava ser enganada daquela maneira. Agora sim, teria o filho de volta só para ela. Pensava.

Ao chegar em casa procurou por Fernando. Ele não estava. Foi até o quarto da empregada saber do filho.

─ Elvira, onde está Dinho?

─ Ele chegou logo depois que a senhora saiu, estava jantando quando recebeu um telefonema e saiu correndo sem dizer aonde ia. Tentei perguntar, mas ele disse que não tinha tempo para explicações e que mais tarde telefonaria para a senhora.

─ Ele perguntou por mim?

─ Sim, eu disse que a senhora tinha ido a uma missa de sétimo dia de uma amiga. Foi o que a senhora me disse quando saiu. Não é?

─ Sim, claro. A missa acabou demorando mais que o previsto.

─ Está bem obrigada, descanse. Boa noite.

E assim Helena sentia-se vitoriosa. Estava feliz. Seu plano fora perfeito. O filho sofreria por algum tempo e acabaria esquecendo, pensava Helena nem por um instante desconfiando que seus irmãos não tivessem envenenado Clara conforme seu desejo e sim, apenas a tinham feito dormir por algumas horas.

No silêncio de seu quarto, Helena esperava pelo retorno do filho que, em sua imaginação, estaria neste momento sofrendo as dores da perda de um ser amado. Enquanto esperava ansiosa, o telefone tocou. Era Dinho.

─ Meu filho onde voce está? Já é muito tarde!

─ Sei que é tarde. Liguei para avisá-la que estou com problemas com um amigo que está passando mal no hospital. Vou ficar para apoiar a família e amanhã cedo volto para casa.
Sem contestar e, sentindo a alegria efêmera de sua maldade, Helena respondeu:

─ Quem é esse amigo?

─ É um amigo de curso que a senhora não conhece. Depois conto tudo.

─ Está bem meu filho, até amanhã então.



Apesar de estranhar o conformismo da mãe, Fernando sentia-se aliviado por poder  ficar ao lado de Clara naquele momento pois, a pobre moça for a hospitalizada depois de ter sido encontrada por pessoas conhecidas que, no momento em que ela dormiu no banco da praça, passavam por lá.

A imaginação de Helena a fazia crer que Clara estava à beira da morte e que Fernando nada dissera pelo simples fato de que guardava segredo sobre ter reatado o namoro com Clara. Pensando assim, não se preocupou. Dormiu.

Na manhã seguinte,  Helena tratou de procurar logo por Fernando, queria certificar-se do sucesso de seu plano. Encontrou o filho tomando seu café visivelmente cansado, mas, tranquilo. Nenhum sinal de desespero ou revolta. Estranhou, aproximou-se de Fernando e perguntou:

─ Bom dia filho. E então, como está seu amigo?

─ Foi uma noite longa mãe mas ele está bem agora. Daqui a pouco terá alta do hospital.

Helena não conseguia entender a tranqüilidade do filho. Será que mesmo numa hora tão difícil ele seria capaz de fingir? Pensava Helena.
Helena retornou ao seu quarto, pensou, pensou. Não era possível que Dinho reagisse tão friamente diante da morte da namorada. Alguma coisa estava errada e Helena queria descobrir o que era.
Tinha de encontrar uma forma de saber sobre Clara. Pensou então em ligar para a casa da moça, fazendo-se passar por uma amiga desavisada. Esperou que o filho saísse ou se afastasse do local onda ficava o telefone e, na primeira chance, ligou para a casa de Clara.
─ Bom dia, quero com falar com Clara.
─ Voce é amiga dela querida?
─ Sim, somos amigas de escola.
─ Olhe meu bem, Clara passou mal ontem a tarde, teve até mesmo de ser hospitalizada. Não sabemos ainda o que foi que aconteceu mas posso lhe garantir que ela já está melhor. Voltará para casa daqui a pouco. Voce quer deixar algum recado?

Do outro lado da linha, Helena sentiu suas pernas tremerem, seu sangue ferver e sua cabeça rodar. Desligou o telefone sem nada responder. O chão lhe fugia dos pés. O que poderia ter dado errado? Ligou imediatamente para a casa da mãe, queria falar com os irmãos.
─ Eles não estão com voce? Respondeu a mãe de Helena que também não tinha notícias dos filhos.
─ Não, eles voltaram para ai, não?
─ Não, não voltaram para casa ainda.

Helena, desesperada e cega de raiva, desligou o telefone sem mais nada dizer. Neste instante, Elvira, a serva da casa, aproximou-se de Helena notando sua palidez e mal estar, perguntou:
─ Dona Helena, o que foi que houve? A senhora está bem?

Helena afastou Elvira com um forte empurrão e saiu correndo em direção ao seu quarto. Pensava:
“Aqueles cretinos me enganaram. Levaram tanto dinheiro.
Eles me enganaram. “E agora”?



Helena andava de um lado para outro. Transpirava tanto que, em minutos,  suas roupas estavam molhadas. Sentia-se traída mais uma vez. Não conseguia raciocinar. Só sentia ódio. Seu estado físico e mental era lamentável. Foi então que, diante de tamanho descontrole, seu corpo reagiu, como não poderia deixar de ser, negativamente.

Helena caiu desmaiada assim permanecendo, sozinha, por quase uma hora até que, Elvira, estranhando a ausência prolongada da patroa, bateu na porta de seu quarto. Como não recebeu resposta, decidiu entrar. Elvira encontrou Helena desmaiada. Assustou-se muito, mas sabia que teria de agir rápido, pois não fazia idéia do que estava acontecendo com sua patroa. Gritou por socorro para uma vizinha que imediatamente veio ao seu encontro. Ambas pegaram Helena e a colocaram num táxi. Pediram ao motorista que se dirigisse ao hospital mais próximo, o mais rápido que pudesse. Chegando ao hospital, Helena foi rapidamente atendida enquanto Elvira e a vizinha aguardavam.
Nesse ínterim, Mário sentiu um mal estar estranho seguido da lembrança de Helena. Deixou tudo o que estava fazendo e começou a orar pela paciente sem nem mesmo imaginar o que, naquele instante, estava acontecendo. Em meio a suas preces, Mário foi interrompido pelo barulho insistente de seu interfone. Atendeu contrariado e após ouvir que era Dona Violandi ao telefone, preocupado, apressou-se em atendê-la.

─ Mário não tenho boas novas.

─ Posso sentir. Ainda há pouco Helena me veio à mente.

─ Deus te abençoe por tanta sensibilidade. É isso mesmo, o problema é Helena. Foi internada há umas duas horas atrás. O diagnóstico é triste, ela sofreu um derrame cerebral.

─ Qual é o hospital? Vou agora mesmo para lá.

Dona Violandi passou então o endereço do hospital para Mário e seguiu também ela para lá.
Fernando, já na sala de espera do hospital, ao ver a avó chegar, sentiu-se aliviado e protegido. Abraçou-se a ela com força e deixou que lágrimas há muito represadas, caíssem copiosamente. Dona Violandi, com todas as suas forças, orava silenciosamente pelo neto e por Helena.
O quadro clínico de Helena foi considerado grave. Teria morrido se demorasse mais a ser socorrida e, se tivesse demorado menos, o quadro não teria sido tão grave. Mário, assim que chegou ao hospital, juntou-se à equipe médica que se encarregou do caso de Helena. Findos os procedimentos médicos, Mário sentou-se numa cadeira, ao lado de sua tão querida paciente. Tomou uma de suas mãos na dele e, com fervor pedia por ela. Neste instante o quarto de hospital que abrigava Helena encheu-se de luz e de amigos espirituais que vieram atender às súplicas sinceras de Mário. O que puderam, fizeram. Otávio também estava presente e via com tristeza, a situação da mãe de seu neto.

No Vietnã, Carlos sofria toda a sorte de provações. A guerra se arrastava lenta e imprevisível. O sofrimento que experimentava fazia-o refletir sobre uma série de coisas antes nunca por ele pensadas. A hostilidade do ambiente vinha transformando um homem. As cenas que cotidianamente presenciava, o frio, a fome, o horror, estavam fazendo de Carlos, outra pessoa.
Esta guerra foi uma época difícil para os americanos. Muitos homens perderam a vida. Alguns, muito jovens.


O que se podia ver com os olhos físicos era realmente terrível , quem pudesse ver além, ou seja, com os olhos do espírito, via quanto sofrimento ainda estava por ser vencido.
Nos campos de batalha, muitos desencarnados vagavam sem entender sua real situação. Queriam continuar na guerra. Outros entendiam rapidamente e se deixavam guiar com doçura rumo ao plano espiritual. Certamente, nestes campos, havia uma sobrecarga de energias,  ali trabalhavam espíritos socorristas e espíritos endurecidos que sentiam prazer com todo aquele sofrimento. Muitas vezes, os homens mais fracos, além de estarem passando por uma situação material difícil, ainda atraiam para si espíritos obsessores que contribuíam com o agravamento da situação tanto geral quanto pessoal do obsedado.
Alguns, como era o caso de Carlos que estava recebendo orações e que, caíra em si sobre a realidade de uma guerra, tiravam da situação, lições proveitosas. Estes conseguiam não se entregar à brutalidade conservando assim, em seu íntimo, alguma dignidade e algum respeito até mesmo pelo inimigo.
As marcas de uma guerra são profundas naqueles que a vivem. Os gritos são ouvidos ainda por muito tempo mesmo do lado de lá da vida e, quanto mais o encarnado se comprometer, mais se aprisionará quando seu desencarne de der.
Carlos percebeu sofrendo o valor da vida e o da sua família. Só não conseguia ainda, sentir-se totalmente confortável com a lembrança do filho, mesmo aceitando por fim que o amava.
Outra tristeza viria em breve abater Carlos, em poucos dias receberia a notícia da doença de Helena e aos seus ouvidos chegariam os rumores de que mais jovens viriam unir-se a tropa americana no Vietnã, dessa vez até mesmo jovens civis seriam treinados e convocados. Pensaria imediatamente no filho e no quanto não gostaria de vê-lo lá.

Mário mostrava-se incansável no trato com Helena, apesar de ainda em coma, seu médico amigo não a abandonava dispensando à ela todo o seu cuidado e boa parte de seu tempo. Tal dedicação tranqüilizava Fernando e Dona Violandi.

Os familiares de Helena foram avisados sobre o ocorrido e não se fizeram presentes. Os irmãos pensavam:
 É castigo. Olha só, Deus é justo e ainda bem que não caímos na armadilha dela.

 Clara recuperou-se totalmente do efeito dos tranqüilizantes que ingeriu sem saber,  muito embora seu sistema nervoso tenha demorado algum tempo até recuperar a total normalidade. Foi informada pelo namorado sobre o estado de saúde de Helena, boa pessoa que era, chocou-se e pedia a Deus por ela em suas orações.
O amor de Fernando e Clara crescia a cada dia. Quanto mais se conheciam, mais se amavam e mais fortaleciam seus vínculos. Pensavam em casamento, mesmo se tivesse de ser contra o gosto de Helena. Tal envolvimento levou-os ao ato sexual, fortalecendo assim, a convicção de ambos quanto ao casamento.

O que os preocupava era a guerra, em pouco tempo, Fernando daria inicio a sua carreira militar.
O que eles não sabiam era que, mesmo jovens civis seriam convocados para o Vietnã, tal era a gravidade da situação.





- A DOENÇA DE HELENA -

O que pôde ser feito por Helena, pela espiritualidade, foi dar-lhe mais uma chance em sua atual encarnação. Foi-lhe permitido continuar vivendo.


Helena saiu do coma e começava a apresentar sinais de melhora, porém, nunca mais seria a mesma pessoa. As sequelas de um derrame grave como foi o dela, são muitas. Pelo resto da vida dependeria sempre de alguém. O que se esperava, espiritualmente, é que seu sofrimento descortinasse-lhe o bem, fazendo-a arrepender-se de erros que vinha cometendo. Mário a ajudaria.
Todos sentiram muito quando souberam das futuras condições de vida de Helena.
Helena foi aos poucos, tomando consciência de suas condições e do mal que havia sofrido. Embora todos pensassem que ela não estava entendendo o que diziam, ela entendia sim. Apenas seu corpo não respondia mais aos comandos cerebrais. Passou então a sofrer as dores de um espírito que, embora lúcido de pensamentos, vivia em um corpo imóvel e mudo,  já não contava mais com a palavra, visto que a doença atingira seu cérebro de tal forma que,  à Helena só restaram alguns poucos gestos e o olhar. Por muitas vezes, sentiu vontade de morrer. Nada mais podia fazer contra Clara. Isso era o que mais a afligia.
Mário dedicava a Helena, todos os dias, algumas horas. Seu companheirismo intrigava Helena e ao mesmo tempo, era seu conforto sem o qual, tudo seria muito mais difícil para ela. Mário entendia que ajudar Helena fazia parte de sua missão, até mesmo porque isto lhe fora dito. E ele o fazia com amor e prazer. Mesmo sem conhecer o real motivo pelo qual Helena fazia parte de sua missão.



- A GRADUAÇÃO DE FERNANDO -

Fernando chegou aos dezoito anos com uma carga de problemas bastante pesada. A  mãe doente, o pai, a três anos na guerra, o inicio da carreira militar bem no meio de uma crise tão séria como era o conflito no Vietnã e a possibilidade dele mesmo ter de enfrentar as frentes de batalha, apesar de sua inexperiência.Mas, o que mais doía no coração de Fernando era ter de separar-se por tempo indefinido de Clara. E o casamento? Teriam de esperar para: A Quando a guerra acabar.
Cientes de que a ida de Fernando para o Vietnã era um fato, ele e Clara trocaram juras de amor. Prometeram um ao outro que se casariam e que nada, nem mesmo o tempo, seria capaz de separá-los. Venceriam a distância e saberiam esperar. Este viria a ser o grande consolo de Fernando.
Passados alguns dias de seu aniversário, Fernando dá início à sua carreira militar. Em solenidade oficial, Fernando sagra-se sargento do exército americano, após ter concluído curso preparatório.
Compareceram à solenidade, a avó, tão querida, Clara, Mário e alguns amigos. Ao olhar ao redor, o coração de Fernando sentia a falta da mãe e do pai calar-lhe fundo na alma. Lágrimas não puderam ser contidas nem por ele, nem pelos outros.
No dia seguinte ao da solenidade, chega às mãos de Fernando a temida convocação. Dali a dois dias, faria parte das tropas americanas no Vietnã.
Helena foi poupada da notícia. Disseram-lhe que Fernando partiria para seu primeiro treinamento como sargento. Dentro dos EUA.
O coração de Helena sabia que não era verdade e lágrimas tímidas puderam ser vistas em seu rosto confirmando assim, sua total capacidade de entendimento e raciocínio. Dentro de seu corpo limitado pela doença, Helena sofria.

Carlos soube que o filho agora era sargento. Um misto de orgulho e dor foi o que sentiu. Mais dor ainda sentiu quando teve acesso à lista de convocados prestes a unirem-se à eles no Vietnã. Lá estava o nome de Fernando. Carlos não pôde conter as lágrimas e o medo. Nada podia fazer para impedir que o filho viesse.

A despedida de Clara e Fernando foi muito triste e , naquele instante, muitas outras despedidas estavam acontecendo, tão tristes e dolorosas quanto a deles. Fernando partiria com um grupo grande de soldados da mesma idade dele.


A população americana sofria principalmente depois que a televisão começou a trazer imagens da realidade dos fatos na guerra. O que se via era chocante e doloroso. Todos questionavam se tudo aquilo era mesmo necessário, o governo americano importava-se somente com seus propósitos e continuava a aumentar o contingente das tropas no Vietnã.

No centro espírita que Dona Violandi freqüentava, as orações passaram a ser feitas diariamente em favor de todos os que estavam sofrendo aquele momento tão difícil.
Otávio, vez ou outra, fazia-se presente enchendo de paz e esperança o coração sofrido de sua companheira.

Mário passou a cuidar integralmente de Helena após a partida de Fernando, instalou-a definitivamente na clínica e passou a viver lá ele também. Aos poucos foi falando com Helena sobre a doutrina espírita, sobre a lei do carma e tudo o mais que julgou necessário que ela tomasse conhecimento. Sentia que Helena prestava muita atenção, às vezes mudava de expressão e quando isso acontecia, ele tornava a explicar o mesmo assunto. Este trabalho vinha acrescentando muito na vida de Mário.



- FERNANDO NO VIETNÃ -

Ao desembarcar no Vietnã, o grupo de soldados ao qual Fernando pertencia, foi recepcionado por vários oficiais, entre eles, estava Carlos. Carlos procurava manter-se firme. Teria de vencer a emoção que sentia. Ao avistar o pai, Fernando manteve também ele, a postura e a contenção da emoção grande que parecia sufocá-lo. Após as devidas formalidades, Carlos aproximou-se do filho, olhou fundo em seus olhos e não pôde deixar de abraçá-lo. Fernando correspondeu ao abraço, sentia-se feliz e muito triste ao mesmo tempo. Os anos passados na guerra haviam deixado suas marcas em Carlos que estava magro e abatido, porém, melhor como pessoa, Fernando teria oportunidade de verificar isto.
Pai e filho conversaram longamente naquele dia, sabiam que talvez outra chance não teriam. Carlos alertou Fernando sobre todos os perigos existentes no Vietnã, colocou-o a par de tudo o que veria e das privações que passaria. Procurou traçar um mapa completo da situação e apresentou-lhe o povo amigo e o povo inimigo. Carlos dessa maneira procurava ao máximo esclarecer Fernando para que de alguma forma, ele soubesse se proteger.
Depois de reencontrar o filho, Carlos percebeu que o velho sentimento que nutria por ele, havia quase que desaparecido. Alegrou-se muito por isso e pela primeira vez em muitos anos, fez uma prece de agradecimento a Deus.


A primeira missão de Fernando na guerra foi a de acompanhar um grupo de soldados veteranos que deveriam inspecionar uma aldeia a procura de soldados vietcongues, ou seja, soldados norte vietnamitas infiltrados no sul. Ele não fazia a menor idéia do que veria. Acompanhou os soldados com a responsabilidade de dar-lhes cobertura. Ao chegarem na aldeia, o que deveria ser uma inspeção, tornou-se cruel invasão. Os companheiros de Fernando entraram na aldeia chutando tudo o que viam pela frente, inclusive pessoas, entravam nas cabanas arrancando portas, apontando armas, quebrando tudo. Ouviam-se muitos gritos de horror, pessoas corriam por todos os lados completamente indefesas. Por alguns minutos, Fernando teve vontade de correr dali também. Não conseguia acreditar no que via e no fato de estar ali, compartilhando de tamanha crueldade. Que seus companheiros usavam drogas há muito tempo, Fernando tinha consciência, só não sabia até onde elas poderiam levar aqueles jovens. Descobriu naquele dia e jurou para si mesmo que aguentaria tudo sem usar artifícios. A pior cena do dia e talvez de sua vida, Fernando presenciou a poucos metros de distância. Uma mãe saia de uma cabana, desesperada, com o filho nos braços que sangrava muito, a mulher rogava por ajuda quando, fria e covardemente, um dos soldados mirou e acertou uma inocente que caiu por terra envolta numa poça de sangue, sem vida. Tal atitude revoltou profundamente Fernando que bateu tanto no  companheiro que teve de ser contido e levado de volta à base, algemado, por mau comportamento.
Carlos foi informado do ocorrido e foi ver o filho que, mal havia começado as manobras no Vietnã e já se encontrava preso.
Ao ver o pai, Fernando chorou feito criança e pedia sem parar para ir embora dali. Carlos comoveu-se, mas, sabia que teria de ser enérgico com o filho para seu próprio bem.
─ Pare com isso garoto, afinal, para que escolheu este ofício?
─ Não foi para ser covarde e desumano pai.

Carlos, diante de tal afirmação, teve de pensar.

─ Sargento, existem homens aqui, tremendamente desgastados, viciados, alucinados pelo sofrimento, no momento oportuno, serão substituídos por outros. Sei que a revolta que sente, não muda diante disso, mas, voce está aqui. Cumpra o seu dever com dignidade. Faça a sua parte da maneira que melhor lhe convier e convença-se, de uma vez por todas, que voce está numa guerra real. Isto não é simulação. Erga a sua cabeça e enfrente. Eu avisei, mas voce não se preparou. Aqui não existe lei nem tão pouco humanidade, pelo menos por enquanto porque, aquele que exceder sua autoridade, mais tarde será julgado por crime de guerra. Sargento, sob o efeito de drogas, de frio, de fome, de tensão, ninguém se lembra que pode ir ao tribunal. Voce teve apenas a sua primeira experiência. Controle-se e cumpra o seu dever.
Diante da energia do pai, Fernando recompôs-se e sentiu-se mais calmo.

Ao deixar o filho, Carlos lembrou-se de quantas vezes na infância de Fernando, eles haviam simulado uma guerra, de brincadeira. Carlos arrependeu-se amargamente das fantasias que criou. Hoje, vivendo a realidade sabia que, este era o tipo de brincadeira que jamais repetiria.

Um mês se passou, Fernando aprendeu a conviver com os horrores da guerra mantendo limpa a sua mente, repudiou as drogas.




- A GRAVIDEZ DE CLARA -

Clara sofria de saudades do namorado, chorava e orava todos os dias. Recebeu, dentro do mês, apenas uma carta, escreveu várias. Atribuiu à tensão do momento, a suspensão de suas regras. Consultou-se com seu médico de família que, com um belo sorriso, comunicou sua gravidez. Clara sentiu o chão fugir-lhe. Nunca seria compreendida, sua família a condenaria. Sentiu-se perdida, atordoada. Não sabia a quem recorrer diante de situação tão delicada, pediu sigilo ao médico e foi procurar a única pessoa que julgou apta a compreendê-la, Dona Violandi.

A futura bisavó chorou de emoção enquanto Clara chorava desesperada. A carinhosa senhora prometeu ajudá-la no que lhe fosse possível.

─ Dona Violandi como é que eu vou dar esta notícia aos meus pais? Eles vão morrer de tristeza, vergonha, indignação.



─ Querida, sei que será difícil falar com seus pais porém, voce sabe que é necessário.
Este momento deve chegar cedo ou tarde, pense nisto. Talvez a certeza de que meu neto se casará com voce assim que retorne, amenize as coisas. Confie em Deus e na sagrada missão que Ele está pondo em suas mãos. A maternidade é uma benção de Deus. É uma das mais fortes manifestações de Seu amor por todos nós, sejam pais ou mães. Voce não é menos digna do que as outras mulheres por ainda não ter se casado. É sim, tão digna quanto qualquer uma porque aquele que conhece o seu coração, sabe que nele há pureza. Todos nós a conhecemos Clara e sabemos do seu caráter honesto. Nunca, em momento algum, devemos julgar quem quer que seja e, conhecendo bem a sua pessoa, o que qualquer um pode concluir é que voce apenas amou e que Deus abençoou o seu amor. Na lei de Deus os contratos não existem apenas o amor.

Clara saiu da casa de Dona Violandi muito aliviada. Combinaram contar primeiro a Fernando, por carta mesmo, já que não havia outro jeito e esperar pela sua volta era absolutamente inviável. Esperariam pela resposta de Fernando para então contarem a nova aos familiares todos.

A ajuda de Dona Violandi fez com que Clara se sentisse mais forte e já começasse a amar seu bebê. Como o fazem todas as mães, seja lá qual for a situação que venham a enfrentar.

Ao receber a carta de Clara, antes mesmo de abrir o envelope, Fernando sentia-se feliz. Procurou no meio da agitação da base, um lugar que estivesse mais tranqüilo, onde ele pudesse ler em paz a carta de sua amada. Começou a leitura devagar, como que quisesse tirar do papel e da tinta, gotas de mel, como fosse alimento muito apreciado. Já no meio da leitura, não podia conter as lágrimas que por pouco não ensoparam todo o papel. Tremia de felicidade e dor por estar ali, tão distante quando sua vontade era de estar bem perto. Não sabia o que fazer. Foi correndo ao encontro do pai e sem conseguir emitir palavra, estendeu-lhe o escrito de Clara. Ao terminar a leitura, Carlos estava boquiaberto, nem mesmo ele sabia o que dizer. Pensou em dar uma bronca no filho por sua irresponsabilidade, mas, conteve-se.

A situação que viviam no Vietnã não permitia mais tensão. Pensou um pouco e disse:

─ Muito bem, eis ai mais um motivo para que voce saia vivo e bem dessa guerra. De agora em diante, cuide-se mais.

Foi o que Carlos conseguiu dizer sem demonstrar que também ele estava emocionado e feliz pelo filho e pelo fato de que seria avô.

A resposta de Fernando à carta de Clara foi uma verdadeira declaração de amor a ela e ao bebê. Tentou colocar no papel, toda a sua alegria e emoção, jurando que voltaria e que seriam muito felizes juntos, os três.

Clara alegrou-se e emocionou-se muito com a resposta de Fernando. Os dias passados, o apoio de Dona Violandi e a resposta à sua carta, fortaleceram Clara que sentia agora poder enfrentar com mais firmeza a situação.

A hora de enfrentar os pais se aproximava. Clara pediu auxílio a Dona Violandi que prontamente ofereceu-se para estar ao lado dela quando eles conversassem. Esse apoio tranqüilizava o coração da moça.

Dia e hora foram marcados para a conversa com a simples desculpa que Clara gostaria que os pais conhecessem a avó de Fernando. Ambos concordaram sem objeções. Mal sabiam o que viria por trás dessa visita.

Antes de dirigir-se à casa de Clara, Dona Violandi fez suas preces, sempre de maneira fervorosa e confiante no bem. Assim, deixou tranqüilamente sua casa e foi ter com os pais de Clara.


Dona Violandi foi muito bem recebida pelos pais de Clara, antes de entrar no assunto real da visita, conversaram bastante e animadamente. O clima estava bem relaxado quando ela disse:

─ Clara meu bem, chegou a hora, sente-se aqui, vamos falar sério agora.
.
Clara sentiu suas mãos esfriarem, o coração disparar, a cabeça girar.

─ Bem, tenho que dizer uma coisa bastante difícil a voces, por isso pedi que Dona Violandi viesse hoje até aqui. Sozinha talvez eu não conseguisse falar.

Fez-se um silêncio profundo na sala, todos olhavam para Clara sem entender absolutamente nada. Sua mãe adiantou-se preocupada:

─ Minha filha, se o assunto é assim sério, fale logo.

Clara tremia, sabia que devia falar, fosse qual fosse o resultado da conversa.
─ Eu e Fernando vamos nos casar assim que ele voltar.

─ Bem, disse o pai, disso nós já desconfiávamos.

─ Pai, por favor, escute o que tenho a dizer, é muito difícil para mim mas tenho que conseguir falar.

Clara respirou fundo lutando contra as lágrimas que lhe chegavam aos olhos.

─ Vamos nos casar porque nos amamos em primeiro lugar e em segundo lugar  porque vamos ter um bebê.

A mãe de Clara desmaiou, o pai não sabia se acudia a mulher ou ouvia mais a filha.
Todos acudiram a mãe de Clara que, em poucos instantes, já se recompunha do susto. Trouxeram-lhe água fresca e rapidamente seu mal estar passou. A conversa pôde então ser retomada.
Perguntas, advertências, expressões de incredulidade, clima tenso. Assim continuou a conversa até que Dona Violandi levantou-se para ir embora.

─ Minha senhora, obrigada por apoiar minha filha. Estamos muito assustados e nervosos, mas acredito que tudo vá passar. Esperamos que realmente seu neto cumpra sua promessa. Talvez seja apenas este ponto que no momento nos serve de consolo.

─ Meu neto é homem decente e de bem. Além do mais, como voces mesmos puderam notar, pela carta que ele escreveu, ele ama Clara verdadeiramente.

─ Isso é bom, respondeu o pai de Clara ainda muito nervoso.

Dona Violandi retirou-se com a sensação de dever cumprido e de coração leve. No caminho de volta, pensou em Helena:

“Será que ela entenderia se contassem a ela”?

Pensou então em falar com Mário, telefonaria assim que chegasse em casa. Foi o que fez.
─ Como vai Mário? E Helena, está bem?

─ Tudo na mesma. E a senhora como tem passado?

─ Bem, com a graça de Deus. Tenho apenas uma novidade e gostaria de sua opinião se posso ou não contá-la a Helena.
─ Bem, vamos lá, pode dizer.
 ─ Meu neto vai ser pai. A namorada dele está esperando um bebê!.
 ─ Não me diga!.Mas que surpresa boa Dona Violandi!.
─ É também estou muito feliz com a notícia, muito embora a situação não seja lá muito confortável.
─ Pois é, mas esqueçamos isso. O importante é a alegria que sempre uma criança traz.


 ─ É sim amigo, o que realmente importa é isso mesmo mas, o que acha? Devemos ou não contar a Helena?
 ─ Vamos dizer sim. Ela precisa saber das coisas. O estado em que ela se encontra não a impede de entender o que se passa a seu redor. Ultimamente tenho lido para ela e estou certo de que ela consegue compreender tudo. Além do mais, esta doença é sua grande prova, pode beneficiar muito o espírito dela. Sei que ela tem aprendido e tenho fé em Deus que tudo isso a fará evoluir.
 ─ É, sei disso. Espero que ela aproveite realmente esta chance e que agradeça muito a Deus por tê-lo colocado no caminho dela.
 ─ Eu também sou grato a Ele por poder cuidar de Helena.

Terminaram a conversa marcando encontro para o dia seguinte quando então, dariam a notícia da gravidez de Clara a Helena.

Como sempre, Dona Violandi, antes de sair para o encontro com Helena, fez suas preces e pediu a Deus e à Espiritualidade, auxílio. Em meio a suas preces, teve a grata surpresa da presença de Otávio, seu esposo.

“Minha menina, devo ser breve. Peço que não se perturbe por não mais, pelo menos por um período de tempo, poder comunicar-se comigo. Tenho missão importante a cumprir. No momento oportuno, voce saberá do que se trata. Fique na paz de Deus e no amor do Mestre Jesus”.

A aparição e a mensagem de Otávio comoveram Dona Violandi profundamente. Sentia uma alegria intensa e uma fé ainda maior, mais forte. Sentia a presença Divina em seu coração por isso sabia que, apesar da interrupção das comunicações com o esposo, este estaria sempre por perto sendo para ela, sempre luz e vida.

Dona Violandi encontrou Helena nas mesmas condições de sempre. Bem tratada e assistida por Mário, vivia em sua cadeira de rodas. Não podendo comunicar-se, apenas ouvia, pensava e sentia. O carinho da ex sogra alegrava o coração de Helena que agora, nas suas condições atuais, podia perceber melhor o quanto ela era boa e dedicada a todos.

Mário e Dona Violandi sentaram-se próximos a Helena e iniciaram com ela uma conversa alegre e descontraída. Vez ou outra, podia-se notar claramente a expressão de alegria de Helena, o que animava muito aos dois,  assim podiam perceber que conseguiam levar à ela, um pouco de conforto. Entraram então no assunto sério da visita:

─ Helena, estou muito feliz. Sabe, quando Dinho puder voltar do treinamento que está participando, será um homem ainda mais realizado. Sabe por quê? Estou aqui para te dar uma notícia muito boa e bonita. O Dinho já sabe e está muito contente. Ele vai ser pai. Quando chegar vai se casar com Clara e ambos vão cuidar de seu netinho Helena. Voce vai ser avó e eu bisa, não é maravilhoso?



Neste instante, o coração de Helena parecia que ia saltar de seu peito, tamanho foi o choque que a notícia causou. Mário e Dona Violandi que nada sabiam sobre as manobras escusas de Helena, assustaram-se com a sua reação. A palidez tomou conta do rosto de Helena e Mário muito preocupado, tratou de socorrer a amiga imediatamente. Medicou-a  e pôs-se a seu lado até que seu estado de saúde voltasse novamente ao normal. Com  medo de piorar ainda mais a situação, Dona Violandi retirou-se preocupada mas Mário ficou de mantê-la informada sobre o estado de Helena. Chegando em casa, Dona Violandi  ficou muito pensativa. Entendia mais ou menos a reação da ex nora, mas, sentia que algo mais existia por trás de uma simples indisposição de Helena para com Clara. Pensando, rascunhou mentalmente algumas possibilidades e todas elas a assustavam muito. Sabendo que, cada pessoa tem o seu carma, fez a única coisa que podia vibrar positivamente por Helena, por Clara, por todos.

Helena foi aos poucos recobrando os sentidos. Não fosse o pronto socorro de Mário, teria desencarnado. Presa a um corpo incomunicável, Helena sofria muito. Apesar de ter reagido mal à notícia da gravidez de Clara, os ensinamentos que vinha recebendo de Mário já a estavam transformando espiritualmente. Ela estava começando a entender coisas que jamais haviam passado por sua cabeça. Mário era dedicado e sempre lia e explicava sobre a vida espiritual a Helena. Ela entendia tudo e estava começando a aceitar a Doutrina Espírita em seu coração. Por esta razão, quando a lucidez voltou-lhe totalmente, entendeu melhor o que estava acontecendo. Sentiu então o gosto amargo do arrependimento. Sentia necessidade de pedir perdão, porém, não podia fazê-lo. Fez a única coisa que podia. Orou a Deus, pediu perdão a Ele e entendeu melhor até mesmo sua doença. Sabia que mais nada poderia fazer, além disso, e então, passou a orar todos os dias. Ansiava pelos ensinamentos de Mário e ele como a ouvi-la mentalmente, até mesmo respondia suas dúvidas. Ficava cada vez mais clara para Helena a Doutrina. Cada vez que Mário respondia a uma dúvida sua, mais a fé e a crença cresciam no coração de Helena que agora vivia resignada em seu corpo enfermo.


A situação no Vietnã continuava a mesma, o que confortava Fernando era a imagem de Clara e do filho que nasceria. Esta era a razão de suas forças. Fernando sentia muito receio quanto à sua integridade psíquica, por isso, procurava envolver-se o menos possível com o cenário e com as cenas que via. Mantinha-se firme quanto às drogas, ficando longe delas. Viu companheiros seus voltando para casa completamente desorientados, emocionalmente irrecuperáveis. Alguns voltaram por sérios problemas neurológicos. Seriam fatalmente internados em manicômios. A guerra não apenas tomava a vida,  a transformava também.Fernando temia tudo isso e afortunadamente, soube numa conversa com o pai, que ele também sofria dos mesmos temores e procurava, assim como o filho, preservar-se ao máximo. Ambos agora tinham mais um motivo para preservarem-se, o bebê de Clara.


- CONFRONTO FATAL -

Foi num confronto noturno que tudo aconteceu. Sem saber o motivo, Carlos lembrou-se do quanto um dia sentira-se desconfortável com a presença do filho. Sentiu saudades de Helena, dos pais, de sua antiga vida. Aprendera com a dor a amar o filho, mas, nesse dia, lembrou-se de seu velho sentimento, mas tratou de afastá-lo, não mais o queria.

Nesse mesmo dia, Fernando também se lembrou da mãe, sentiu tristeza e saudades. Sentia-se mais amigo do pai, isso o confortava, mas, em seu íntimo, sentia que devia-lhe alguma coisa que não conseguia entender o que era.

Os pensamentos de pai e filho foram interrompidos pelo soar do alarme da base militar. Os vietcongues estavam, sorrateiramente, invadindo a base. O confronto aconteceu surpreendendo a todos. Gente morta por todos os lados em questão de segundos, dor.

Fernando olhou a sua volta, procurava o pai quando para seu grande desespero viu um vietcongue bem atrás de Carlos, arma pronta para o disparo. Fernando então reagiu. Com um grito desesperado e apavorado, Fernando atirou-se em cima do pai, recebendo ele, a bala que tiraria a vida de Carlos.



Carlos mal podia acreditar no que via. Em seus braços morria Dinho. Seus olhares encontraram-se pela última vez na existência atual de ambos. As únicas palavras que Fernando conseguiu pronunciar foram: Amo voce, cuide de Clara e do bebê, por favor.

Assentindo com a cabeça e vendo que a vida deixava o corpo do filho, Carlos desesperou-se, gritava, gemia, chorava. Permaneceu agarrado ao filho por horas. Pedia-lhe perdão, dizia que o amava com o coração e que tudo faria pelo neto. Veio-lhe a culpa também, afinal Dinho morrera para salvá-lo. Isto o torturava ainda mais, porém entendia também que estes eram os fatos e que Clara e o neto precisariam dele, este pensamento permitiu que Carlos se refizesse, deixasse o corpo do filho para que os procedimentos legais fossem executados. O corpo de Fernando seguiria de volta para os EUA, assim como Carlos que, por esta razão, conseguiu livrar-se do Vietnã. Pensava:

“Até isso meu filho, voce me deu. Salvou minha vida duas vezes”.

A notícia da morte de Fernando chegou com rapidez aos familiares. Dona Violandi sentiu um pesar profundo, esclarecida como era, começou a pedir pelo neto em oração. Os familiares de Helena também foram comunicados, sentiram muito, mas não se moveram nem mesmo demonstraram interesse em comparecer ao funeral. Seus tios só conseguiam repetir que tudo era castigo de Deus, que Helena merecia tudo o que estava passando, afinal era uma assassina.

Dona Violandi sabia que cabia a ela dar a notícia a Clara, como a situação era muito delicada, pediu auxílio a Mário, sendo médico, teria como tratar Clara, se esta tivesse uma reação muito negativa. Prontamente Mário colocou-se a disposição de Dona Violandi   mas, tinha ele mesmo um dilema nas mãos, Helena. Mesmo com todo o seu conhecimento, Mário sentiu-se inseguro e temeroso, não conseguia imaginar que tipo de consequencia  a notícia traria à sua paciente amiga. Pensou, orou e concluiu que, lúcida como estava, Helena deveria ser informada, mesmo porque, este fato talvez fizesse parte das provas dela. Decidiu falar-lhe com cuidado, depois de medicá-la com calmantes. Assim procedeu Mário, medicou Helena e iniciou uma conversa suave sobre vida após a morte do corpo. Helena ouvia com atenção, sem desconfiar de nada, era hábito de Mário falar-lhe sobre esses assuntos. Finda a conversa, Mário então assumiu uma postura séria e falou:

─ Minha querida, sei que entende tudo o que lhe digo, Deus permita que voce realmente esteja compreendendo e aceitando, pois tudo o que lhe digo, é real. Voce sabe que pode confiar em mim. Helena peço que seja forte ao ouvir o que tenho a lhe dizer agora. Confie em Deus sempre e em primeiro lugar. Ele lhe dará forças, esteja certa disso mesmo que a dor venha a calar-lhe muito forte no peito. A revolta não cabe, pois Deus é justo e misericordioso sempre, mesmo que algumas vezes, pensemos o contrário. Quando assim procedemos, é pelo nosso egoísmo que o fazemos, é pela nossa pequenez que permitimos que a revolta se apodere de nós. Espero que voce esteja conseguindo me entender e suporte resignada a notícia que lhe trago. Sei que irá sofrer muito, mas, amiga, pense em tudo o que já lhe expliquei e tenha fé, muita fé no Pai Criador.



A estas alturas, Helena, dentro de seu corpo mudo e imóvel, estava apavorada e claro, pensou logo no filho e antes mesmo que Mário continuasse a conversa, chorou amarga e doloridamente. Queria gritar, correr ao encontro do filho, mas, nada, a não ser chorar, era o que ela podia fazer. Seu sofrimento era imenso.

─ Sei que já entendeu o que quero lhe contar, devo continuar, porque a respeito muito, sinto-me na obrigação de contar-lhe.  Fernando sofreu um acidente durante as manobras de treinamento e veio a falecer. Todos estamos sofrendo, nem por isso vamos agora deixar de acreditar em tudo aquilo que aprendemos até o momento. Esta é a hora de pormos em prática as lições que recebemos caridosamente do Alto. Sabemos que a vida continua em outra dimensão, que Deus é sempre bom e por isso mesmo, nos dá a chance da reencarnação. Deixamos na terra apenas o corpo que serviu de instrumento para a elevação de nosso espírito eterno e imortal. Precisamos do corpo por um período curto de tempo,  vivemos realmente na eternidade. Compreendo a sua dor.  Helena, por caridade, confie nos desígnios de Deus e não se revolte. O que de bom voce pode fazer agora por seu filho é orar e pedir que seja levado pela espiritualidade a um bom lugar, onde ele possa inteirar-se de sua nova situação em paz. Assim, efetivamente, voce o estará auxiliando, amiga creia em mim. Ficarei sempre ao seu lado, voce sabe.

A dor de Helena era imensa. Mário achou por bem poupá-la dos detalhes da guerra uma vez que, quando Fernando partiu, nada lhe foi dito, mas, em seu íntimo, Mário sentia vontade de contar toda a verdade, pois acreditava que ninguém carrega um fardo que não possa suportar e que todas as pessoas têm o direito de saber as verdades que envolvem suas vidas. Quem sabe, um pouco mais adiante, ele diria tudo a Helena, por ora, sua enorme dor bastava.

Mário e Dona Violandi armaram-se de coragem, fé e de muito amor para poderem comunicar a  morte de Fernando a Clara. Sabiam que a tarefa seria difícil, mas necessária.

Foram bem recebidos pelos pais de Clara que, logo nos cumprimentos, perceberam que algo de ruim havia ocorrido. Clara chegaria em casa em poucos minutos assim Dona Violandi teve a chance de falar-lhes primeiro.
Profundamente tocados pela morte de um rapaz tão jovem que seria o futuro marido de sua filha, o casal ficou desolado. Ainda mais pelo fato de a filha estar grávida. O que seria dela? As pessoas falariam.
Clara chegou, percebendo o clima pesado, logo soube. Deixou-se cair numa poltrona,  o chão lhe fugia. O bebê nasceria por aqueles dias. A forte emoção acelerou o processo, Clara começou a sentir dores fortes. Mário auxiliou-a e, percebendo que entrara em trabalho de parto, tratou de levá-la imediatamente ao hospital. No caminho, mesmo sentindo fortes dores, Clara quis saber dos detalhes da morte de seu tão amado Fernando.

Mário, defensor da verdade, contou-lhe tudo, mesmo sendo o momento, aparentemente, desfavorável. Clara ouviu com atenção e, já não mais sabia se a dor da perda era maior que a dor física, ambas confundiam-se.



- LEONARDO -

Nasceu Leonardo, forte, saudável. Leonardinho, Dinho, mais tarde seria seu apelido.



O trajeto de volta para casa foi um suplício para Carlos, viajar junto ao corpo morto do filho foi tarefa dolorosa, porém, reflexiva. Carlos pôde, durante as horas de viagem, repensar toda a sua vida até àquele momento. Refletiu sobre todos os seus erros e estava determinado a repará-los. Pensava no neto e no quanto queria acertar com ele. Seu arrependimento e disposição atraiam espíritos de luz, dispostos a ajudá-lo no recomeço. Tal atração confortava-o e ele nem imaginava de onde vinha seu bem estar.

Carlos e o corpo de Fernando finalmente chegaram aos EUA.
Foram recebidos com pompas e circunstâncias pelas autoridades civis e militares, fato que não aplacava a dor de seus familiares e amigos.
Clara, mesmo em estado delicado de pós parto, fez questão de receber o corpo de quem tanto havia amado, o corpo do pai de seu filho Leonardo.
Todos se sentiam tocados pela dor, mas, felizmente, no geral, era uma dor reparadora, sem desespero, sem revolta.
Mário fez questão de que Helena velasse o filho. Instruiu-a para que se mantivesse em prece e, como se pudesse ler seus pensamentos, pediu a Clara que levasse o filho para que a avó pudesse conhecê-lo.
Antes mesmo do enterro do corpo de Fernando, Helena pôde conhecer o neto que, junto aos avôs maternos, chegou ao velório do pai.
A emoção tomou conta de Helena. Percebia claramente o milagre da vida. Uns vão, outros vem. Entendia o ciclo, graças à dedicação de Mário, nem por isso deixou de chorar, nem de se emocionar diante de um pequenino corpo, que era sangue de seu amado filho.
Intimamente, deu graças a Deus, por tudo e novamente pediu perdão pelos seus terríveis erros. Suportou com dignidade o enterro de seu filho, a quem tanto amara.

Dona Violandi, ao conhecer o bis neto, entendeu então a mensagem de seu esposo Otávio. Sentiu que, aquele pequenino corpo, recém nascido, trazia consigo o iluminado espírito de Otávio. Emocionou-se e deu graças a Deus pela oportunidade. Compreendeu que a reencarnação de Otávio era necessária, os acontecimentos eram muito tristes e, só um espírito iluminado poderia apaziguar tanta dor, trazendo de volta ao seio da família a alegria e a chance de acertos.

O estado de saúde de Helena comovia Carlos, fazendo-o sentir mais carinho e respeito por ela.

Carlos não cabia em si de alegria ao conhecer o neto, mesmo porque era um velho conhecido.
Naquele instante soube que viveria o restante de sua vida para Leonardo e para corrigir-se. Sentia paz quando se lembrava de Fernando, muito embora sua morte tenha sido violenta e muito dolorosa para Carlos.

A guerra do Vietnã levou dor e sofrimento a muitos lares, isso sem falar nos carmas que as nações adquirem após passarem por uma guerra,  nada pode justificar a intolerância e a violência dos homens.

Apesar de os americanos nesta guerra terem contado com bons armamentos, tecnologia, homens preparados, aviões poderosos, sucumbiram à resistência dos vietcongues e à sua astúcia.
O que deixa claro que a arrogância e a covardia nunca vencem.
Esta página negra da História durou de 1956 até 1973. Os americanos derrotados foram recebidos com vergonha e tristeza pela população americana. O derramamento de sangue fora em vão.

Ao saber da derrota de seu país, Carlos sentiu revolta e dor. Pela primeira vez conseguiu compreender o quão estúpida é a guerra, o quanto se perde e desperdiça.



- APÓS A MORTE -



Fernando acordou para a vida espiritual, bastante confuso.
O trabalho de auxílio a ele foi grande, pois seu desencarne se dera de maneira violenta. Felizmente Deus em sua misericórdia e em seu profundo e puro amor, sempre dá a chance a todos de entenderem e progredirem.
Aos poucos Fernando foi compreendendo sua situação e logo após pôde entender todos os fatos ocorridos em sua última encarnação. Soube que, em encarnação pregressa, fora amante de sua mãe Helena.
Esta era casada com Carlos e para poder viver seu amor junto a Fernando, tramara com ele a morte de Carlos. Claro que então usavam outros nomes. Fernando, seduzido por Helena, mata Carlos de modo traiçoeiro e cruel, um tiro pelas costas. Mesmo assim, Carlos pôde ver o autor do disparo, levando com ele ódio por Fernando, mas, bem instruído na espiritualidade e conseguindo perdoar a Fernando, decide tomá-lo como filho para poder consumar o seu perdão.
Ele mesmo, Fernando, antes de desencarnar naquela ocasião, arrependera-se muito de seus atos, concordando em tomar Carlos por pai, podendo assim, ter a chance de reparar seu erro que tanto sofrimento trouxe a seu espírito.
Helena, por sua vez, não conseguira clarear seus sentimentos após seu desencarne de então. Foi induzida à reencarnação por estar ligada a Carlos e Fernando. Teria por misericórdia divina, a chance de ajustar-se mesmo sem ter entendido completamente o quanto errara.
Fernando sofreu muito ao recordar todos estes fatos,  sentia que todos estavam dando largos passos, através da dor, rumo ao ajuste, ao acerto.
Soube ainda que Helena encarnara numa família que tinha a mesma faixa vibratória dela. Não tinha Helena com sua última família terrena, laços que justificassem ajustes, apenas afinidades de vibração era o que tinham em comum.
Conhecer a verdade pode ser doloroso, porém é um mal necessário e Fernando sofreu ao ver na tela de sua última encarnação, toda a trama de Helena contra Clara. Entendeu então a razão da doença da mãe e orou para que ela também encontrasse o caminho da redenção. Sentiu conforto ao saber que Helena seria auxiliada por Mário e que o arrependimento sincero já a havia tocado.
Soube qual era a real ligação de Helena e Mário.
Ele havia sido seu anjo guardião e, como não obtivera êxito com Helena no passado, decidiu reencarnar para que seu trabalho fosse feito de maneira mais concreta, mais próxima pois a sutileza da espiritualidade não conseguia tocar o espírito endurecido de sua protegida. Fernando alegrou-se ao realizar que desta vez Mário estava obtendo sucesso, Helena ouvia-o com interesse e atenção, acatando seus ensinos.
Os irmãos que estavam auxiliando Fernando no regresso a vida espiritual perceberam que seu pensamento voltou-se para o avô, desejava vê-lo. Por motivos bastante concretos, Fernando teve permissão para saber que o avô havia reencarnado a muito pouco tempo como Leonardo, seu filho com Clara. Sentiu uma felicidade enorme diante de tal revelação,  conhecia bem a luminosidade do espírito do avô e sabia que ele levaria conforto, alegria e novas oportunidades de acerto a todos.

A saudade que Fernando sentia de Clara o incomodava muito.
Orientaram-no para que não sofresse com a saudade e aguardasse com fé e esperança o retorno dela pois Clara era sua alma gêmea, aquela que estaria ao seu lado na eternidade, mesmo que se casasse com outro na terra. Tal certeza invadiu de alegria o espírito de Fernando que agora sentia alívio, conforto. Só mais uma coisa o incomodava e sentiu necessidade de esclarecer-se. Por qual motivo teriam ido, ele e Carlos para a guerra? Apenas para reajustarem-se?
Foi-lhe respondido que não, apenas foi um aproveitamento circunstancial. Se não tivessem ido para a guerra, reajustariam-se de qualquer forma em outra situação. A guerra é um erro sério que a humanidade deve vencer. No meio dela, como sabia muito bem Fernando, uns comprometem-se mais, outros menos, outros se mantêm limpos, na medida do possível, como fizeram ele e Carlos, espíritos tocados anteriormente pela ação reparadora do perdão.


A cena mental que Fernando trazia da guerra era dolorosa e triste, levaria tempo para que pudesse apagá-la, esquecê-la.
Do outro lado da vida, quando se consegue compreender, perdoar e seguir adiante, tudo fica mais fácil, mais claro, compreensível.
Tendo Fernando compreendido todos os seus erros e acertos e, tendo o tempo passado, foi-lhe concedida a graça de um encontro com Clara. Seria durante o sono dela, momento no qual o espírito separa-se temporariamente do corpo para viver espiritualmente. Clara seria levada, por trabalhadores espirituais, até Fernando. O encontro deu-se assim:

Após o adormecimento completo do corpo de Clara, seu espírito, então liberto da carne, torna-se livre para a vida espiritual. Orientada pelos trabalhadores do lado de lá, vai até onde Fernando vive.

O cenário é agradável e aconchegante. Uma casa branca, simples, um pequeno portão que ela abre, três lances de escada, uma porta que se abre com a sua chegada.
 Clara dá passos incertos até chegar a uma sala, sem móveis, sobe uma escada e, no topo dela, encontra Fernando que a espera.
 ─ Clara, que bom vê-la.
Clara abraça-se forte a Fernando que corresponde beijando-lhe com suavidade os cabelos.
  ─ Clara, ouça, todas as promessas que lhe fiz são verdadeiras.Se não pude cumprir meu juramento de voltar da guerra, foi pela vontade de Deus que o fiz e saiba, foi o melhor para nós. Assim tinha de ser. Meu amor por você e por Leonardo jamais se apagará. Vou amá-los para sempre. Um dia você saberá e compreenderá o que lhe digo. Quero minha querida, que você siga sua vida, levando-me como uma doce lembrança.
Fernando e Clara abraçaram-se fortemente, jurando sem palavras, o que não era necessário jurar.
Já de volta ao corpo, Clara lembrou-se do  sonho, absorvendo toda a sua essência.
Clara deixou de sofrer, seu espírito imortal sabia que nada ficaria para quando a guerra acabar.

F I M






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Pesquisar este blog