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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Teologia e Teologia de Umbanda




Teologia e Teologia de Umbanda
Pensar, Fazer e Produzir Teologia

Por Alexandre Cumino
“Não há religião sem teologia”

“A produção teológica não é propriedade de alguns profissionais,

ela não pode ser refém dos líderes e sua hierarquia.”

“Nós podemos e devemos fazer teologia”

“Temos quase que por obrigação, por missão, fazer teologia”

Prof. Dr. Antonio Boeing

Coordenador do Curso de Bacharelado em Ciências da Religião - UNICLAR

“Teólogos são arrogantes por pensar que estão mais perto de Deus.”

Clodóvis Boof

“Quando um religioso racionaliza, pensa, reflete e fala sobre a sua religião,

produz teologia, não importa qual seja a sua formação”

Alexandre Cumino

A palavra Teologia vem do grego (Théos + Logos) em que Théos = Deus ou Divindade,

Logos = Palavra ou Estudo. Logo literalmente Teologia é o Estudo de Deus, das Divindades ou

simplemente o Estudo do Sagrado.

Quem primeiro se utilizou do termo foi Platão em A Republica para delimitar um campo

de compreensão racional da natureza divina, diferente das abordagens poéticas. Aristóteles

também empregou o termo para definir a filosofia primeira mais tarde chamada de

Metafísica.

Quando um religioso pensa sobre sua religião está pensando teologicamente, sua

reflexão é teológica e suas conclusões são de conteúdo teológico, desta forma se produz

teologia. Racionalizar, pensar, refletir e expressar a religião partindo de dentro da mesma é

sempre teologia. Cada religião tem a sua teologia e muito mais do que isso há formas diversas de pensar teologias ou seja muitas teologias e múltiplas opções de pensar uma mesma religião por exemplo.

Há a Teologia Cristã que engloba várias Teologias como Teologia Católica, Teologia

Luterana, Teologia Calvinista, Teologia Metodista, Teologia Adventista, Teologia

Evangélica, Teologia Pentecostal, Teologia Neo-pentecostal, etc.

Dentro da Teologia Católica podemos catalogar diferentes Teologias como a Teologia

Franciscana, Teologia Jesuíta, Teologia Dominicana, Teologia Mariana, etc. Pode-se

estudar Teologia Histórica buscando a Teologia Medieval, Teologia Moderna e Teologia

Contemporânea ou Teologia Pós-Moderna, buscando as tendencias de acordo com a época.

Assim como há Teologia da Libertação, Teologia da Esperança, Teologia da Prosperidade,

Teologia do Perdão, Teologia do Pecado que são formas de pensar algumas questões

especificas dentro de um campo social, cultural ou dogmático. Conforme se organiza e divide

a Teologia em áreas de conhecimento surega Teologia Sistemática, dividida em sistemas que explicam temas e assuntos como Angeologia, Cristologia, Mariologia, Escatologia,
Pneumatologia...

Podemos tratar de todas estas várias teologias e outras ainda apenas dentro do
cristianismo, que engloba em si mesmo uma grande variedade de teologias. E da mesma
forma encontraremos diferentes Teologias e variações teológicas dentro de todas as religiões; como Teologias Islâmicas, Teologias Judaicas, Teologias Hinduístas, Teologias Afros, Teologias Indígenas e muitas outras.

Teologia é para todos e não para poucos, todos pensam sobre Deus e o sagrado, inclusive

ateus...

Teologia de Umbanda

Em 1996 Rubens Saraceni idealizou e concretizou um “Curso de Teologia de Umbanda”,

partindo de vasto material que vinha psicografando com o pensamento, reflexão e conceitos

passados a ele por seus guias, mentores e outros mensageiros de Umbanda. A espiritualidade manifestava por ele a clara intenção de organizar e produzir material teológico com uma visão de cima para baixo, do mundo espiritual para o mundo material. Dentro desta proposta estava o objetivo inovador de ensinar a todos que tivessem o interesse de aprender um pouco mais sobre umbanda. Leigos, médiuns e sacerdotes umbandistas (Pais e Mães de Santo, Madrinhas e Padrinhos, Babás e Babalawôs, Caciques e Mestres), independente de serem ou não seus filhos espirituais, filhos de santo, discípulos ou umbandistas. Embora na Umbanda já houvesse um pensar teológico variado que se identifica como Umbanda Branca, Tradicional, Popular, Mista, Esotérica, Pura, Eclética e etc. Não houve uma produção teológica sistemática por boa parte destes seguimentos e o umbandista em geral carecia de compreensão teórica para suas práticas e fundamentos. Há sim uma literatura de umbanda que teve inicio em 1933 com a primeira publicação de Leal de Souza e que se multiplicou desde a década de 1950, ainda assim, em sua maioria, ou usavam (os autores umbandistas) uma linguagem muito popular, carecendo de fundamentos e base racional, ou abusavam de pseudo-erudição ocultista-esotérica para explicar confundindo e confundir explicando. Copiando o hermetismo europeu com seus dogmas e tabus explicados à razão de fundamentos Atlantes, Lemurianos, Sânscritos, Egípcios e outros. Tão distantes da Umbanda quanto a distancia temporal e geográfica de suas pseudo-origens e mitos fundantes de religiões primordiais e verdades absolutas.

Existem muitas Faculdades de Teologia, assim como há Faculdades de Filosofia,
Sociologia, Antropologia, História, Matemática... E assim como há faculdades para estas
disciplinas também há cursos livres, sem a pretensão acadêmica de graduação, mas com o
único objetivo de ensinar a quem queira aprender independente de sua formação. São muito
comuns os cursos de teologia ministrados em Igrejas e Templos Católicos, Luteranos,
Evangélicos, Pentecostis e Neo-pentecostais. Estes cursos se destinam a religiosos que querem simplesmente aprender mais e conhecer os fundamentos de sua religião.

Da mesma forma é com a Umbanda, se Rubens Saraceni idealizou o primeiro curso de
“Teologia de Umbanda” hoje surgiram muitos outros cursos de Umbanda, que levam nomes
variados como Curso de Doutrina Umbandista, Curso de Iniciação Umbandista, Curso Básico
Umbandista, Curso de Introdução á Umbanda ou simplesmente Curso de Umbanda.
Multiplicam-se os Cursos dentro e fora dos terreiros com o único objetivo de organizar o
conhecimento e passar informação adiante. É fato que a obra de Rubens Saraceni colaborou e muito como inspiração para o surgimento de novos cursos e também de uma nova literatura
umbandista, que vem ganhando o coração dos adeptos.

A Teologia de Umbanda

Por Rubens Saraceni

Escrever sobre Teologia de Umbanda não é tarefa fácil porque antes precisamos definir o que é

Teologia e o que é Doutrina de Umbanda.

• Teologia: tratado de Deus; doutrina que trata das coisas divinas; ciência que tem por objeto o dogma e a moral.

• Doutrina: conjunto de princípios básicos em que se fundamenta um sistema religioso,

filosófico e político; opinião, em assuntos científicos; norma (do latim doctrina).

Pelas definições acima, teologia e doutrina acabam se entrecruzando e se misturando, tornando difícil separar os aspectos doutrinários dos teológicos, principalmente em uma religião nova como é a Umbanda que, para dificultar ainda mais esses campos distintos, está compartimentada em várias correntes doutrinárias.

Panteões formados pelas mesmas divindades mas com nomes diferentes confundem quem deseja aprofundar-se no seu estudo.

Autores umbandistas temos muitos! Mas as linhas doutrinárias os separam e em um século de Umbanda ainda não foi possível uma uniformização teogônica ou doutrinária. Então, imaginem a dificuldade em tentar algo no campo teológico.

Quando iniciei um curso nomeado por mim “Curso de Teologia de Umbanda”, isto no ano de 1996, foram tantas as reações contrárias que esse meu pioneirismo gerou até um certo autoisolamento, que me impus para preservar-me e ao meu trabalho no campo da mediunidade, da psicografia e do ensino doutrinário.

Ser pioneiro e iniciar algo até então não pensado por nenhum outro umbandista gerou para mim uma certeza inabalável:

• Na Umbanda, tirando a parte prática ou os trabalhos espirituais, tudo mais ainda está para ser uniformizado e normatizado.

• Batizados, casamentos, funerais, iniciações, etc., cada corrente doutrinária tem seus ritos e

ninguém abdica do seu modo e prática particular em benefício do geral ou coletivo.

Eu mesmo, orientado pelos mentores espirituais, desenvolvi ritos de batismo, de casamento, de funeral e de iniciação fundamentais e possíveis de serem ensinados em aulas coletivas e de serem realizados com grande aceitação por quem a eles se submetesse, já que são muito bem fundamentados.

Mas, não para surpresa minha, já que não esperava que fossem aceitos, foram recusados

por muitos e admitidos só por uma minoria.

E mais uma vez os umbandistas desdenharam ritos fundamentais em pé de igualdade com os das outras religiões e continuaram casando-se em outras religiões e batizando seus filhos fora da Umbanda.

Só uma minoria é fiel aos seus ritos! Com isso, perde a religião e perdem os umbandistas.

Lembro-me que, quando comecei o meu curso de Teologia, um grupo que pratica uma Umbanda diferenciada (segundo eles) criticou-me violentamente e tudo fez para desacreditar-me e aos meus livros, mostrando-me como um ignorante e a eles como doutores nisto, naquilo e naquilo outro.

Os leitores, que não desinformados, ainda que a maioria não seja doutores, não deixariam de

notar a falta de fundamentos ou de fundamentação em tais críticas.

Pressa e oportunismo não são bons companheiros de quem deseja semear algo duradouro no tempo e na mente das pessoas, principalmente entre os umbandistas, tão refratários a mudanças.

Eu, com muitos livros teológicos e doutrinários já escritos há muito tempo, não me animei em

publicá-los antes de ter iniciado o meu curso em 1996, e só anos após ministrá-lo a centenas de pessoas e ser aprovado por elas ousei colocar ao público livros de Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada.

Mas antes, tomei a precaução de testar minha teoria de que havia criado um novo campo de

estudo para os umbandistas já que, sem a aprovação deles, de nada adiantaria lançá-lo pois cairia no vazio e no esquecimento, tal como já está acontecendo com os livros dos meus mais afoitos críticos, detratores e vilipendiadores.

Quem tenta se apropriar das idéias e das criações alheias e das criações alheias corre o risco de ser tachado com a pecha de oportunista e deve tentar destruir a todo custo quem teve a ideia primeiro e criou algo de bom. Caso contrário, este alguém sempre os acusará e mostrará a todos que oportunismo e esperteza em religião têm vida curta porque não prosperam no tempo, além de não contarem com a aprovação da espiritualidade e dos sagrados orixás, que não delegaram a ninguém o grau de reformador da Umbanda, pois ela ainda não ultrapassou a sua fase de implantação no plano material.

Os meus livros também se inserem nessa fase e espero que este meu comentário sirva de

estímulo a outros umbandistas (não apressados e não oportunistas) e que venham a contribuir para que seja criada uma verdadeira “literatura teológica umbandista”, tão fundamental quanto indispensável à doutrina de Umbanda.

Eu sei que isso demorará muito tempo para acontecer, mas sou obstinado e continuarei a

contribuir com o calçamento do caminho que conduzirá as gerações futuras à concentração dessa nossa necessidade.

Texto de Rubens Saraceni extraído do livro “Tratado Geral de Umbanda

- As chaves interpretativas teológicas” – Editora Madras.

A Formação Teológica do Sacerdote de Umbanda Sagrada

Por Rubens Saraceni

Todo sacerdote precisa receber uma preparação muito boa para que possa exercer com
sabedoria todas as múltiplas funções que este cargo religioso exige.

É certo que toda as religiões, em seus inícios, não tenham toda uma teologia á disposição
daqueles que aderem a elas e assumem posições de destaque, comando ou liderança sacerdotal.

Com a religião Umbandista não seria diferente, pois além de nova, ainda está na sua fase de
implantação. fase esta que ainda é experimental mas que permitirá que uma linha de pensamento se delineie naturalmente e torne-se predominantemente em sua doutrina religiosa.

Mas esse experimentalismo não desobriga o sacerdote umbandista de uma boa formação, com a qual poderá exercer suas funções e discutir sua religião com sabedoria e com conhecimentos
fundamentais acerca do seu universo religioso.

Nós sabemos que a Umbanda é uma religião espírita na qual a voz de comendo e a última palavra é dada pelos mentores espirituais e pelos guias-chefes dos médiuns. Fato este que tem sido de grande valia para a manutenção dos seus templos e para que as sessões ocorram de forma ordenada.

Mas, e por isto mesmo, é imperioso que todo sacerdote Umbandista desenvolva uma consciência voltada para aprendizado permanente. Fato este que beneficiará a religião como um todo, pois permitirá um aprimoramento ritualístico e uma renovação dos conceitos subtraídos de fontes religiosas não Umbandistas, mas incorporadas para suprir as lacunas conceituais, filosóficas e teológicas ainda existentes. Com algumas até gritantes porque o descaso com a formação teológica dos seus sacerdotes tem vulnerabilizado até práticas comezinhas, tais como: batismo, ma trimônio e funerais, durante os quais uma boa parte dos Umbandistas ainda recorrem a sacerdotes de outras religiões.

Nós sabemos que toda religião, em seu início, ainda é difusa e padece de ritos unânimes entre seus adeptos. Fato este que faz com que em certos casos ou situações seus seguidores recorram aos sacerdotes de suas antigas religiões ou com alguma outra a qual tenha identificação e tenha parentes ou amigos dentro dela.
Por isso é imperioso que envidemos todos os esforços necessários para, num curto tempo,
suprirmos as lacunas ainda existentes dentro da nossa religião.
Conceitos filosóficos, teológicos e doutrinários mais profundos, só surgirão com o amadurecimento da própria religião. Mas isto não significa que devemos ficar de braços cruzados e a espera de que alguém venha com tudo pronto porque isto não acontecerá.
Sim. Só quando todos os Umbandistas desenvolverem uma consciência religiosa verdadeiramente de Umbanda e totalmente calcada em conceitos próprios é que um pensamento filosófico, teológico e doutrinário muito bem delineado surgirá e se imporá em todas as correntes mediúnicas que formam essa maravilhosa religião espírita fundamentada na existência de um Deus único e na sua manifestação através de suas divindades (os Sagrados Orixás ou Tronos de Deus).
Devemos incorporar conceitos cujos valores sejam universais e estejam presentes na vida e no dia a dia dos Umbandistas. Assim como, devemos refutar conceitos parcialistas ou dogmáticos que tolham o aperfeiçoamento de nossas práticas e sobrecarreguem a vida e o dia a dia dos Umbandistas, afastando-os dos templos ou impedindo-os de manifestarem livremente suas religiosidades e suas preferências conceituais.

Saibam que os conceitos universais sempre foram incorporados pelas religiões nascentes, que recorrem a ele até que elas mesmas desenvolvam seus conceitos religiosos universalizadores de suas doutrinas, ritos e práticas.

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